A religiosidade afro-brasileira na obra de Carlos Julião

Por Eneida Queiroz, Mestra em História do Brasil

Não podemos falar das roupas e da cultura popular sem mapear a população que habitou as Minas Gerais no século XVIII. Além de portugueses do reino e colonos, a maioria esmagadora da população mineira era negra: africanos escravizados e escravos já nascidos no Brasil.

A sociedade mineira era profundamente religiosa, mergulhada nos mistérios e rituais da igreja católica. Se a riqueza estava nas mãos de poucos mineradores e a vida era simples para os demais habitantes: o esplendor do ouro seguia para as igrejas e suas celebrações. A união do sagrado e do profano em festas, em toda região das Minas, enchia de cor e vida as vilas no calendário religioso. Cada vila procurava fazer uma festa mais esplendorosa que a da outra localidade. As festas mais populares eram as de Nossa Senhora do Rosário, patrona de irmandades negras, as Congadas e a Folia de Reis (ou Reisado).

Desde a descoberta do ouro, entre os que migraram para as Minas encontravam-se muitos frades de ordens primeiras católicas. Uma Ordem Primeira faz parte da hierarquia católica: elas podem se organizar em monastérios ou conventos, com seus monges e frades. A ordem mais famosa do Brasil Colônia era a da Companhia de Jesus, os jesuítas, pois sua presença era espraiada em todo o território. Para a Coroa portuguesa, no entanto, essas ordens detinham muito poder. Uma das medidas metropolitanas de controle da movimentação do ouro foi a vigilância das estradas. Uma única estrada era oficialmente usada (a Estrada Real, de Minas até Paraty e depois até o Rio), pois a Coroa sabia que “quanto mais caminhos, maiores serão os descaminhos do ouro”. O ouro também só poderia sair do território das Minas fundido em barras, com o selo real de uma das 4 casas de fundição que foram criadas: mas o controle feito sobre os frades – diante de seu poder e proximidade com o plano divino – era menor. A Coroa sabia que frades faziam contrabando de ouro e nasceu até uma expressão famosa: Santo do Pau Oco. Pois, dentro dos santos algumas pessoas – não só frades – costumavam levar ouro que não passou pelo controle real. 

FONTE: PANISSET TRAVASSOS, Luiz Eduardo & VARELA, Isabela & GUIMARÃES, Rose. (2008). Áreas Cársticas, Cavernas e a Estrada Real. Pesquisas em Turismo e Paisagens Cársticas. 1. 107-120.

Dessa forma, as ordens religiosas foram expulsas de toda região das Minas Gerais pela Coroa Portuguesa. Essa expulsão dos frades ocorreu em 1709, logo após o término da Guerra dos Emboabas e, posteriormente, o Conde de Assumar voltou a proibi-los no ano de 1721 (sinal de que nem todos obedeceram a primeira ordem régia). É por essa razão que toda a vida religiosa nas vilas mineiras teve que ser organizada por irmandades leigas. A própria população mineira, profundamente católica, se organizou para continuar os rituais de sua fé. As irmandades leigas são conhecidas como ordens terceiras, fora da oficial hierarquia católica.

Como a sociedade era profundamente segmentada, essa mesma estratificação se repetia nas irmandades religiosas. Havia as irmandades dos escravos, dos negros livres, a dos brancos pobres, a dos ricos senhores, assim por diante. Cada uma podia ter sua própria igreja, construída com doações de seus membros: uma das razões para a profusão de igrejas nas cidades mineiras. O alcance das irmandades ultrapassou as questões religiosas, pois foram associações de indivíduos com posições sociais e interesses semelhantes. Ser membro de uma irmandade determinava quem você era, e quem poderia chegar a ser na sociedade mineira.

As festas de Nossa Senhora do Rosário costumavam ser grandes, com a presença de evidente sincretismo religioso: como o uso de instrumentos musicais de tradição africana: atabaques e zambumbas. Mesmo antes da colonização das Minas Gerais, o São Benedito, a Nossa Senhora do Rosário, a Santa Ifigênia e o Santo Elesbão eram considerados parte das chamadas “devoções negras” em Portugal, já que também para a Europa houve o transporte de africanos escravizados. O culto consistia em missas, novenas, procissões, ladainhas e ofícios fúnebres.

Mas aqui no Brasil, além desses cultos já tradicionais na Europa, as festas do Rosário incorporaram um lado tanto religioso quanto profano da cultura africana. As festas do Rosário eram conhecidas como os “Reinados do Rosário”, ou mesmo “Congadas”, pois entre os festejos um casal negro, representando a realeza do Congo, desfilava pelas ruas, indo até à igreja, ao som de atabaques, zabumbas e outros instrumentos de percussão de origem africana para ser coroado. Congadas são, portanto, um folguedo afro-brasileiro que revela o caráter sincrético da nossa cultura: mesclando cultos católicos com africanos.

Mas havia também outra festa: o Reisado (Folia de Reis), que chegou ao Brasil através dos colonizadores portugueses e aqui se tornou uma mistura de temas sacros e profanos (sacro como o nascimento de Jesus e a visita dos 3 reis magos; e as tradições profanas do teatro, da dança e da música). O Reisado é formado por um grupo de músicos, cantores e dançarinos que percorrem as ruas das cidades, e até propriedades rurais, de porta em porta, anunciando o nascimento do menino Jesus, pedindo prendas e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam.

É um folguedo do ciclo natalino, comemorado no mês de janeiro em várias regiões brasileiras, onde ganhou cores, formas e sons regionais (como a introdução de inúmeros instrumentos musicais de origem africana). Os instrumentos utilizados alternadamente são: a sanfona, o tambor, a zabumba, a viola, a rabeca, o ganzá, pandeiros, pífanos e os “maracás”, chocalhos feitos de lata, enfeitados com fitas coloridas. Tem como personagens principais o mestre, o contramestre, o rei e a rainha, entre outros. O mestre é o regente do espetáculo, utilizando apitos, gestos e ordens, ele comanda a entrada e saída de personagens e o andamento das execuções musicais.

Prancha XXXIX

Os trajes do Rei e da Rainha devem ser os mais bonitos e enfeitados. É uma festa colorida, musical, animada e sempre contou com muita participação popular na região das minas, com a presença de negros entre músicos, dançarinos, inclusive entre o rei e a rainha. A figura desses dois monarcas, ricamente vestidos, em muito lembra a Porta Bandeira e o Mestre Sala das escolas de samba atuais: as duas figuras mais importantes do desfile. Já a figura do mestre é semelhante a do regente de uma bateria de escola de samba. Como se vê: nossas tradições luso-afro-brasileiras não morreram, elas vivem de outras formas dentro de todos nós.

Folguedos negros nas aquarelas de Julião

Carlos Julião representou os festejos do Rosário e do Reisado em suas aquarelas. Na prancha número XXXV, a Biblioteca Nacional nos informa em seu pequeno resumo (que não foi feito pelo Carlos Julião, mas por pesquisadores do século XX, como Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha) que se trata de “vestimentas de escravas pedintes na festa do Rosário”. Depois, outros festejos com reis e rainhas negros, presentes nas pranchas XXXVI até a XXXIX, são descritos como “festa de Reis”, ou seja: a Folia de Reis (Reisado).

Prancha XXXV

Entretanto, a presença da coroação de negros é algo visto tanto nos festejos do Rosário (as também conhecidas Congadas) quanto nos Reisados. Portanto, é difícil saber, ao olhar uma prancha de Carlos Julião (entre os números XXXV-XXXIX), se trata-se de uma Congada ou de um Reisado.

Outra questão que nos surge são os belos sapatos que surgem nos negros nessas referidas aquarelas. A de número XXXV, por exemplo, o resumo da publicação da Biblioteca Nacional nos informa que eram “escravas pedintes na festa do Rosário”, mas acredito que seja mais fácil que fossem negras libertas na festa do Rosário. Afinal, há um rapaz negro descalço, com roupas mais simples, participando dos festejos: esse, sim, deve ser escravo. Na aquarela XXXVII também há negras com botas vermelhas, e negras descalças participando da dança: seria essa a diferença entre libertas e escravizadas nessa aquarela? Sabemos que muitos senhores faziam questão de enfeitar seus escravos de casa com joias, belas roupas e demais adornos em celebrações específicas – como as missas de domingo e provavelmente celebrações das irmandades dos escravos – será que isso incluía também os sapatos vistos nas aquarelas? Ou um escravo, mesmo que ricamente adornado por seu senhor, estaria sempre descalço?

PRANCHA XXXVII

Por último, vale lembrar outra inquietação a respeito dessas aquarelas: a não ser pelas últimas quatro pranchas, nas quais obviamente vemos escravos trabalhando na região mineradora, sobretudo na extração de diamantes (provavelmente em Serro Frio), as outras pranchas podem ser de figuras tanto mineiras quanto do Rio de Janeiro. É provável que seja um misto dessas duas regiões, tipos físicos – com seus respectivos trajes e adornos – que ele viu ao longo do caminho, no passar pelas vilas e arraiais: do mar até Serro Frio.

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