A roupa íntima feminina no século 18

Por Juliana Lopes, bacharel em Moda

A lingerie ou roupa de baixo está diretamente relacionada à intimidade feminina e às ideias de limpeza e pudor. Muito antes de ser percebida como algo ligado à ideia de sedução, ela eram peças puramente funcionais. As roupas íntimas tinham como objetivo proteger o corpo do frio, criar um um suporte para a silhueta específica de cada período e auxiliar na higiene, visto que eram as peças lavadas com maior frequência. A roupa de baixo acompanha a evolução da história da moda e por isso cada período apresenta características bem distintas. Mas então o que era usado por baixo das roupas femininas do século 18? Tratamos do assunto a seguir.

Chemise

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A chemise ou camisa era a primeira peça que entrava em contato com o corpo. Usada desde a Idade Média, ela consistia de um camisolão longo,  comumente feito em linho, com nesgas nas laterais, decote profundo e mangas na altura do cotovelo. Era a peça que protegia as roupas externas da oleosidade do corpo e, portanto, era uma das peças lavadas com maior frequência.

A chemise era uma peça básica e coringa, que permaneceu em uso até o século 20. Nessa foto temos um exemplo original do século 19, que, com exceção das mangas curtas, mantinha a mesma modelagem do século 18. Acervo do Museu Victoria & Albert (Inglaterra)

Na Europa, até a metade do século era comum partes da chemise ficarem à mostra, como um detalhe do traje, o que era uma afirmação de higiene e até de classe social, visto que manter as roupas extremamente brancas era algo reservado a uma elite que não se envolvia em atividade manuais e podia ostentar suas roupas sempre limpas. Nas aquarelas de Carlos Julião encontramos alguns exemplos da chemise sendo usada dessa forma:

Prancha 29

Encontramos exemplos da camisa sendo usada como roupa exterior, como essa representação de uma mulher indígena “civilizada”, ou seja, que já estava sendo submetida aos costumes europeus.

Prancha 11

Stays

Também chamados de pair of bodies, sua principal função era o suporte ao tronco, elevando o busto e proporcionando uma silhueta cônica. Inclusive é analisando esse efeito na silhueta que é possível observar se mulheres estavam usando a peça ou não.

Os stays eram peças rígidas, estruturados com barbatanas de baleia e uma camada de linho engomado, podendo ter forro ou não. Sua aparência variava de acordo com ocasião e classe social, sendo ricamente decorados ou em tecidos lisos. Seu comprimento se estendia do meio do busto até a linha da cintura, onde haviam abas para acomodar o quadril e ajudar a manter as saias no lugar. Sua fabricação exigia mão-de-obra especializada; na Europa eles eram fabricados por alfaiates e não por costureiras, devido à necessidade de força para cortar as barbatanas. No Brasil, não temos informações sobre como essas peças eram confeccionadas ou se eram encomendadas a artesãos europeus. 

Stays originais de 1775 do acervo do Museu do Missouri.

E apesar de ser absolutamente mal visto uma europeia ser vista sem stays, no Brasil essa lógica não se aplicava. Era comum ver mulheres que não utilizavam a peça, ou usavam apenas em ocasiões formais, e elas raramente apareciam em inventários. 

Meias & Jarreteiras

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Tradicionalmente feitas em seda ou lã, a modelagem das meias seguia o contorno das pernas e o comprimento geralmente era acima do joelho. Era comum também que elas tivessem bordados próximos ao calcanhar para enfeitar ou reforçar costuras. E, assim como ocorria com as chemises, ostentar meias brancas e limpas era uma forma de demonstrar status; entre a elite, porém, meias de seda coloridas e bordadas em cores contrastantes eram muito valorizadas.

Par de meias de seda inglesas, 1770-1750. Museu Victoria & Albert.

Para segurar as meias no lugar era necessário usar as jarreteiras, ancestrais das ligas elásticas de hoje. Os modelos sobreviventes que vemos em museu são ricamente decorados e o mais comum era que fossem amarradas com fitas, apesar de no fim do século 18 já surgirem outros tipos de fechos, como fivela. Algumas mulheres usavam apenas fitas de cetim no lugar da jarreteira e há registros também de jarreteiras feitas de couro com fivelas. 

Par de jarreteiras bordadas de origem francesa. Museu de Belas Artes de Boston.

Bolsos

 Nesse período,  os bolsos dos trajes femininos eram uma peça a parte, vestido sob a saia. Podiam ser decorado com bordados, em tecidos lisos ou até mesmo trabalhados em patchwork. Teoriza-se que essas peças eram uma forma de moças jovens poderem treinar técnicas de bordado, por serem pequenas e não ficarem à mostra, o que tranquiliza em caso de erros. Esses bolsos eram acessados por fendas na lateral da saia e assim as mulheres podiam guardar pequenos objetos pessoais, como lápis, perfumes, e afins.

Ilustração satírica dos anos 1770.

Suportes para as saias

Para armar a saia e deixá-la na silhueta desejável do período usavam-se dois tipos de suporte: os bumpads e os paniers.

Bumpads eram almofadas presas em volta da cintura, que garantiam volume de uma forma mais casual e prática. Elas podiam ser estofadas com diferentes materiais, que iam de restos de tecido a cortiça. 

Ilustração satírica dos anos 1780s, contendo alguns exemplos de bumpads em uso na Europa.

Já os paniers eram peças de uso mais formal, principalmente em bailes, corte e afins. Podiam ser inteiriços como o grand panier – que era de uso obrigatório nos Trajes de Corte europeus- ou separado em duas partes como os pocket hoops. Uma mulher em 1746 escreve: ‘Existe muita variedade no modo de se vestir que eu nem sei te dizer como é a moda, a única coisa que parece de uso geral são os paniers enormes”, e esse é apenas um dos inúmeros relatos primários que podemos encontrar sobre essa moda da elite, que chegou a ser tão extrema que algumas mulheres tinham dificuldades de passar em portas ou sentar em algumas cadeiras.

Exxemplo de um grand panier sueco dos anos 1760.

Anágua

Uma camada extra na parte de baixo poderia ser utilizada, como a anágua. Modelos acolchoados/quiltados eram uma opção para aquecer as mulheres no inverno e acrescentar um volume discreto à saia. Nem sempre as anáguas eram brancas; em algumas das aquarelas de Julião podemos ver discretos registros de anáguas coloridas:

Detalhe do traje da Prancha 29.

Fichu

O fichu era um lenço de musselina usado no decote, por modéstia ou para aquecer, usado principalmente para saídas durante o dia. Em mulheres da classe trabalhadora, essas peças também eram usadas para proteger a pele do sol.


Um traje histórico é construído de dentro para fora e portanto é importante a pesquisa das peças que vão embaixo de uma roupa para então pensar na construção da parte externa. Da mesma forma, as roupas de baixo também eram essenciais na construção do ‘eu’ do século 18 e dão muitas pistas do quem a pessoa é, o que ela faz. Na reconstrução histórica, um conjunto de roupas de baixo historicamente correto te ajuda a ter uma ideia de como era a postura e modo de viver de uma determinada persona histórica. 

Referências bibliográficas

CUNNINGTON, C. Willet. The history of underclothes. Nova York: Dover Publications, 1951

KÖHLER, Carl. História do Vestuário. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

WAUGH, Norah. Corset and crinolines. Londres: Routledge, 1991 

Comentários

2 comentários em “A roupa íntima feminina no século 18”

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