Alguns penteados de homens e mulheres brancos na obra de Carlos Julião

Por Bel Franke, Mestra em Antropologia Social

Estudar os penteados do século XVIII é um tema, com o perdão do trocadilho, de quebrar a cabeça. Existem insuficientes descrições precisas sobre os vários tipos de penteados utilizados ao longo desses 100 anos, levando-nos a recorrer com frequência aos registros visuais. Somando-se a essa dificuldade, existe ainda o desconhecimento de termos em português da época referentes ao assunto. O objetivo deste artigo é investigar alguns penteados e acessórios utilizados pelas figurinhas brancas retratadas por Carlos Julião através do cruzamento das informações fornecidas por documentos jurídicos, como inventários, e relatos de viajantes que estiveram no Rio de Janeiro no século XVIII.

Cabe notar que os relatos de viajantes estrangeiros desse período são reduzidos em relação a profusão observada no século XIX devido ao fechamento dos portos brasileiros às nações estrangeiras em 1605, que serão abertos somente em 1808 com a chegada da família real. A escolha por discutir apenas as personagens brancas também se deve à quase ausência nesses relatos de descrições detalhadas referentes à população negra. Como bem observa Eneida M. M. Sela (2008), é nas últimas décadas do século XVIII que os pressupostos científicos e racistas que guiarão as investigações sobre a espécie humana serão gestados. Por esses dois motivos, encontraremos uma infinidade de descrições e tentativas de classificação das diferentes etnias africanas encontradas no Brasil somente a partir do século XIX. Isso não significa, obviamente, que o racismo não existia no século XVIII. O número reduzido de relatos detalhados e o tratamento das populações negras como uma massa homogênea informam que tipo de percepção os europeus tinham dessas pessoas trazidas para cá como escravizadas.

Penteados femininos

            Com relação aos cabelos na obra de Carlos Julião, a figurinha n. 1 da prancha XXIV chama bastante atenção devido ao longo comprimento de suas madeixas. Retratada em trajes domésticos, sem meias, com os sapatos desfivelados e vestindo um quimão, a presença do pente sugere que ela está desfazendo seu penteado e toucado, ou, em termo da época, se destoucando. Essa personagem se torna ainda mais curiosa quando comparada ao restante do conjunto, já que as figurinhas femininas aparecem com os cabelos presos e até mesmo recobertos, seja por chapéus ou toucados, quando não por ambos.

Prancha XXIV

Assim como Carlos Julião, vários viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil no século XVIII fizeram relatos sobre os cabelos das mulheres no Brasil colonial. É recorrente nessas descrições a caracterização dos cabelos como sendo muito longos e quase sempre negros ou escuros. O cirurgião-chefe da Marinha Inglesa John White, por exemplo, escreveu abismado – e quem sabe exagerando? – sobre o comprimento dos cabelos das mulheres no Brasil colonial:

Estando um dia na casa de um rico particular do país, comentei com ele a minha surpresa relativa à grande quantidade de cabelos das damas e acrescentei que me era impossível acreditar que tais cabelos fossem naturais. Esse homem, para demonstrar que eu estava errado, chamou sua mulher, desfez o seu penteado e, diante dos meus olhos, puxou duas longas tranças que iam até o chão” (FRANÇA, 2008, p. 253).

Os viajantes também descreveram os elaborados penteados usados pelas mulheres de vasta cabeleira, que levavam fitas, flores e outros acessórios. O estadista britânico John Barrow, em sua parada no Rio de Janeiro a caminho da China no começo dos anos 1790, escreveu que:

Os longos e negros cabelos delas são normalmente amarrados em tranças com fitas brancas ou coloridas e adornados com pequenas coroas de flores que exalam um cheiro poderoso e agradável, como a Plumeira, a Polianthes ou tuberosa e jasmim. As senhoras idosas, contudo, imitam o modo de vestir da Europa e cobrem suas cabeleiras negras com grande quantidade de gordura e farinha” (BARROW, 2008, p. 55).

Aeneas Anderson, que participou da mesma expedição de Barrow, fez observações semelhantes:

“Os cabelos das mulheres deste lugar estão sempre presos e adornados com flores artificiais, contas e penas fantasticamente arranjadas; nas costas, eles caem em longas tranças, que são entrecruzadas com fitas coloridas e acabam num grande laço” (ANDERSON, 2008, p. 234)

A figurinha n. 3 da prancha XXI usa um elaborado penteado com flores, penas e fitas. Já a figurinha n. 2 da prancha VII parece ter um longo cabelo, preso a nuca com fitas vermelhas.

Figurinha n. 3 da prancha XXI e detalhe da prancha VII

Como curiosidade, é desse período um penteado conhecido como caraminhola, definido por Bluteau como “poupa de cabellos entrançados no alto da cabeça com fita vermelha. (SILVA, 1789, v. 1, p.232), sendo que a poupa é o “cabello levantado na fronte, ou dianteira da cabeça, o mesmo que topete nos homens” (SILVA, 1789, v. 2, p.226). Em descrições de algumas crônicas sobre as procissões realizadas na cidade de Mariana entre as décadas de 1730 e 1750, encontramos a presença desse penteado.

Esses mesmos costumes femininos observados no Brasil foram relatados décadas antes pelo viajante suíço César-François de Saussure quando de sua viagem para Portugal em 1730. Sobre os cabelos das mulheres portuguesas, ele escreve:

Eis como se ataviam: desprezando os toucados, usam habitualmente os cabelos frisados aos lados e enfeitados com flores, travessões e pedrarias. Apartam o cabelo pela nuca em três, quatro ou cinco tranças, conforme lhes dá na fantasia, havendo algumas que as deixam caídas pelas costas e outras que as enrolam em carrapitos ou as metem em coifas de cordão de seda ou de veludo brocado de ouro ou de prata. Estas bolsas são bastante estreitas e compridas pois que chegam até à cintura” (COSTIGAN, 1946, p. 34).

Saussure aponta, ainda, para um tipo de toucado feminino que adornava os cabelos das portuguesas e brasileiras: a coifa. Segundo o dicionário de Bluteau, a coifa é uma “rede de fio de seda, linha, ou de gazas finas feitas á feição das taes redes, em que se mette todo o cabello, e aperta no alto da cabeça” (SILVA, 1789, v. 1, p. 283). Esse ornamento de cabeça aparece em inventários da região das Minas Gerais setecentistas. De acordo com a pesquisa de OLIVEIRA (2010), as coifas eram feitas com tecidos rendados ou sedosos, como o cetim, e até fios de ouro. Nas aquarelas de Carlos Julião, as figurinhas número 01 das pranchas XV e XVI provavelmente usam coifas por baixo do chapéu:

Figurinhas n. 1 das pranchas XV e XVI. Repare que o volume das coifas sugere cabelos longos, como descrevem os viajantes.

Penteados masculinos

            Descrições sobre os penteados masculinos nos relatos de viajantes são mais raros e, quando aparecem, não são tão detalhados. O relato de Watkin Tench que esteve no Rio de Janeiro em 1787 enfatiza que os homens andavam com as cabeças cobertas, utilizando chapéus. Essa informação é corroborada por relatos de viajantes do mesmo período em Portugal, que informam que os homens portugueses se consideravam bem vestidos usando casaca e chapéus:

A maior parte dos habitantes parece não ter outra ocupação além de frequentar a igreja, momentos nos quais se pode vê-los sair muito bem vestidos, en chapeau bras, com acessórios de cabelo e uma pequena espada. Até mesmo garotos de seis anos são vistos desfilando portando esses requisitos indispensáveis” (TENCH, 2008, p. 103).

Poucos anos mais tarde, quando de sua estada no Rio no final do ano de 1792, o botânico britânico George Leonard Staunton observou outra tendência: “os [homens] de nível médio ou alto usavam seus cabelos trançados, amarrados com fitas e enfeitados com flores, a cabeça descoberta” (Staunton, 2008, p. 86).

Nas figurinhas de Carlos Julião, todos os homens brancos, militares ou não, utilizam chapéus e, em alguns, é possível perceber a presença de fitas, como na figurinha n. 2 da prancha XV.

Figurinha n. 2 da prancha XV

A única exceção é um personagem masculino, que usa apenas uma cabeleira. Sobre esse acessório, um viajante estrangeiro em Portugal no século XVIII registrou:

Os homens usam capa e bengala. Estes últimos substituem as rendas, as fitas e as perucas imensas, por casacas de abas curtas adaptadas ao corpo e calças justas apertando debaixo do joelho. Na cabeça exibem pequenas cabeleiras de laço” (SANTOS; RODRIGUES, 1996, p. 75)

De acordo com o dicionário de Bluteau, o termo cabeleira se refere ao cabelo natural, mas também a “cabellos postiços accommodados como os naturaes, e cosidos em huma rede, que se aperta na cabeça” (SILVA, 1789, v. 1, p. 206). As cabeleiras mais finas e caras eram feitas com cabelos naturais, as mais simples com crina de cavalo, pelo de cabra e penas. Como nos informam alguns inventários e crônicas da época, as cores dos fios podiam ser brancas, do tom do cabelo da pessoa ou, ainda, levar fios de ouro dependendo da ocasião de uso. Algumas vezes possuíam fitas que auxiliavam sua fixação na cabeça. Encontrar cabeleiras do século XVIII conservadas em museus é bastante raro, no entanto uma cabeleira produzida no final do século XVIII e utilizada por uma imagem de Nossa Senhora das Dores conservada no Palácio Nacional de Queluz de Portugal demonstra esse mecanismo de fixação.

Cabeleira com fitas de uma imagem de Nossa Senhora das Dores, século XVIII. Palácio Nacional de Queluz.

As cabeleiras eram usadas por homens e mulheres, mas ao que tudo indica nas figurinhas de Carlos Julião encontramos apenas as masculinas, como por exemplo a figurinha n. 2 da prancha XXIII e possivelmente em alguns personagens masculinos que usam chapéu. E elas eram produzidas no Brasil. Como demonstra Rogéria C. Alves (2012), o casal de alforriados Maria Gomes Chaves e Manoel da Silva, que morava na cidade de Mariana em 1780, confeccionava cabeleiras.

Figurinha n. 2 da prancha XXIII e sua longa cabeleira

Mas qual a diferença entre cabeleira e peruca? Novamente, o dicionário de Bluteau vem em nosso auxílio. Peruca seria uma “cabelleira redonda”, provavelmente aquelas com maior volume no topo da cabeça. Assim como as perucas, as cabeleiras também precisavam de cuidados especiais, sendo empoadas com farinha perfumada que aderia aos fios através de pomatum (um tipo de pomada) e óleos.

Referências

ALVES, R. C. A riqueza na medida do possível”: bens e atividades econômicas entre os alforriados em Mariana – (1727 a 1838). Revista de História da UEG, v. q, n. 2, 2012.

BARROW, J. A Voyage To Conchinchina. In The Years 1792 And 1793. In: BRITO, D. L. O Rio de Janeiro do século XVIII no olhar dos viajantes ingleses. Traduções. 2008. 115 f. Monografia. Fundação Biblioteca Nacional Rio de Janeiro, RJ, 2008.

FRANÇA. J. M. C. Visões do Rio de Janeiro Colonial: Antologia de textos 1531 – 1800. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008 (a).

COSTIGAN, A. W. Cartas de Portugal (1778 – 1779). Lisboa: Ática, 1946.

OLIVEIRA, Gracinéa I. Estudo do vocabulário do vestuário em documentos setecentistas de Minas Gerais. Dissertação (Mestrado em Letras) – Faculdade de Letras da Universi­dade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2vol, 2010.

SANTOS, Piedade Braga; RODRIGUES, Teresa; NOGUEIRA, Margarida Sá. Lisboa Setecentista vista por estrangeiros. Ed. Livros Horizonte, 1996.

SELA, E. M. M. Modos de ser, modos de ver. Viajantes europeus e escravos africanos no Rio de Janeiro (1808 – 1850). Campinas: Editora Unicamp, 2008.

SILVA, Antônio de Morais. Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. Lisboa, 1789. 2 v.

STAUNTON, G. L. An Authentic Account of an Embassy from the King of Great Britain to the Emperor of China, In: BRITO, D. L. O Rio de Janeiro do século XVIII no olhar dos viajantes ingleses. Traduções. 2008. 115 f. Monografia. Fundação Biblioteca Nacional Rio de Janeiro, RJ, 2008.

TENCH, W. Narrative of the Expedition to Botany Bay. In: BRITO, D. L. O Rio de Janeiro do século XVIII no olhar dos viajantes ingleses. Traduções. 2008. 115 f. Monografia. Fundação Biblioteca Nacional Rio de Janeiro, RJ, 2008.

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