Apontamentos sobre os uniformes militares do século 18

Por Ligia Guido, Mestra em História do Brasil

A investigação sobre uniformes militares do século XVIII possui os mesmos impasses do estudo das vestimentas em geral: a ausência de exemplares têxteis, lacunas na documentação e a raridade de registros visuais contemporâneos. Como aspecto positivo, podemos indicar a normatização dos fardamentos, que eram estabelecidas por Alvarás régios, indicando as cores, insígnias, objetos e demais elementos do traje completo, que se comparado aos trajes civis, sofriam menores alterações em um dado período de tempo.

Com os dados disponíveis nas fontes, é possível vislumbrar os padrões de fardas de cada escalão, regimento em território lusitano e no ultramar. Partindo dos uniformes e dos indivíduos, muitas outras questões despontam neste contexto histórico. Na América portuguesa, os membros dos três escalões tinham acesso às matérias-primas para a confecção dos uniformes? Além do elemento identificador, as fardas possuíam significados de ostentação e distinção social? As fardas tinham valor econômico e simbólico? Pertencer a um escalão do exército distinguia socialmente? Como eram confeccionadas as fardas?

De quarenta e três pranchas, Carlos Julião dedicou sete (16%) a personagens fardados nos Riscos iluminados de figurinhas de brancos e negros dos uzos do Rio de Janeiro e Serro Frio. É uma porcentagem interessante que reflete a relevância e o papel das instituições militares na colônia brasileira.

A ESTRUTURA MILITAR PORTUGUESA

Na década de 1640, após o período da União Ibérica (1580-1640), a coroa portuguesa reorganizou as forças militares, retomando a Lei de Armas (1569), o Regimento de Ordenanças (1570) e a Provisão sobre as Ordenanças (1574) criadas por Dom Sebastião (1554-1578). Como ressaltou Christiane F. Pagano de Mello, além da defesa contra ameaça espanhola, o rei Dom João IV visou a manutenção das possessões ultramarinas. (MELLO, 2009)

A estruturação militar estabelecida por Dom João IV era composta por três escalões respectivamente: Exército de Linha, Auxiliares e Ordenanças. A primeira era a única formada por profissionais remunerados, denominadas Regulares. O segundo, de Auxiliares (também denominada Milícias) consistia em uma força de reserva, convocada em caso de necessidade, como apontou José Wasth Rodrigues (RODRIGUES, 1978). E a terceira, Ordenanças funcionava como uma grande reserva de homens capazes de combater, com idade entre 18 e 60 anos, que poderiam ser recrutados para as duas primeiras linhas.

A formação da primeira Linha possuía terços de infantaria, companhias de cavalaria e artilharia. Os Auxiliares tinham Terços (ou Regimentos) de 600 homens, subdivididos em 10 companhias de 60 homens e os mestres-de-campo eram os comandantes. As Ordenanças eram compostas por Companhias de 250 homens divididos em 10 esquadras, contando com 234 soldados, um tambor, dez cabos, um escrivão, um meirinho, um sargento, um alferes e um capitão. (RODRIGUES, 1978)

A organização militar em três forças permaneceu constante em Portugal e na América Portuguesa até 1831, com a criação da Guarda Nacional substituindo a segunda e a terceira linhas. (RODRIGUES, 1978)

Infografia: ZambiArts

OS UNIFORMES NA OBRA DE JULIÃO

A representação das fardas realizada por Carlos Julião constitui um registro muito interessante. O nível de detalhamento dos uniformes, desde as casacas, véstias, calções, meias, camisas, suas insígnias, armamentos, calçados e chapéus chama a atenção. Se pensarmos que Julião atuou no exército português da década de 1760 até seu falecimento em 1811, o desenhista tinha grande conhecimento dos fardamentos, pois fazia parte do seu vestuário e cotidiano.  

Seguimos a mesma organização dos escalões do exército para apresentarmos as aquarelas de Julião.

Regulares

Prancha VII – Cena Romântica | Soldado do regimento de infantaria de Moura (1767) despedindo-se- de moça que chora.

O Regimento de Moura foi uma corporação portuguesa enviada para a América portuguesa em 1767 com o objetivo de combater as tropas espanholas na região do Prata.

Carlos Julião registrou Oficiais da Cavalaria da guarda dos Vice-reis nas pranchas V e VI. Tanto o Regimento de Moura quanto a Cavalaria da guarda dos Vice-reis apresentam uniformes nas cores azul e amarelo.

Prancha V – Oficial de Cavalaria da Guarda dos Vice-Reis em grande uniforme

A descrição menciona “grande uniforme”, o indicativo de um traje para cerimônias e eventos importantes e que a montaria possui selim forrado de pelo de onça. Comparando com a prancha seguinte, Prancha VI – Oficiais da Companhia de Cavalaria da Guarda dos Vice-Reis – (Rio de Janeiro) em que Julião retratou dois oficiais do mesmo corpo, nota-se diferença  na gravata do oficial da Prancha V diferente dos oficiais da Prancha VI.

Prancha VI – Oficiais da Companhia de Cavalaria da Guarda dos Vice-Reis (Rio de Janeiro)

Auxiliares

Do segundo escalão, os Auxiliares ou Milícias, Julião representou cinco indivíduos.

Prancha I

A Prancha I foi dedicada a  Rafael Pinto Bandeira, Oficial auxiliar do corpo de cavalaria do Rio Grande do Sul. Vitória contra os espanhóis no Forte de Santa Tecla em 26 de março de 1776. Em seu uniforme chama atenção o penacho colorido de seu chapéu.

Na Prancha II, aparece duas designações: Oficial do Corpo de cavalaria auxiliar do Rio de Janeiro e Oficial do Têrço de S. José (Rio de Janeiro). O Oficial apresenta um uniforme com dois tons de azul – marinho para casaca e calção e claro para a véstia.

Prancha II – Oficial do Têrço de São José (Rio de Janeiro)

Já na Prancha III, o Oficial do Têrço Auxiliar de Santa Rita apresenta calção e casaca azul ferrete e véstia cor de ouro.

Prancha III – Oficial do Têrço Auxiliar de Santa Rita

Na Prancha IV, Julião representou o Têrço dos Pardos e dos Pretos forros (os Henriques).

Prancha IV– Oficial do Têrço auxiliar dos Pretos forros (os Henriques)

A origem do nome Henriques para designar as tropas de negros remonta à expulsão dos holandeses da Capitania de Pernambuco no século XVII, devido ao êxito de Henrique Dias, um ex-escravizado que liderou um terço composto por negros, mulatos e indígenas.

De acordo com Ana Carolina Crispin, no corpo das Ordenanças, os pardos e negros não possuíam acesso às patentes mais altas, como a de capitão-mor. Nas Milícias, foram encontrados vários registros de homens pardos ocupando cargo de oficial e da maior patente que era a de mestre de campo. Militares negros foram empregados em atividades de defesa territorial, destruição de quilombos e captura de escravizados. (CRISPIN, 2011)

O Oficial do Têrço dos Pardos foi a única figurinha que não apresenta meias e o tradicional calção (culotte) dentre os indivíduos fardados de Carlos Julião.

Prancha IV – Oficial do Têrço dos Pardos

Ordenanças

A segunda representação da Prancha II contém a descrição “Ordenança da cidade: casaca azul com botões dourados, véstia e calções vermelhos, camisas com punhos e golas de renda, botas, espada.” Os uniformes das Ordenanças a partir de 1754 poderiam utilizar galões de ouro e prata nos chapéus, antes reservados apenas para as duas primeiras linhas.

Embora existissem decretos, planos e alvarás, os uniformes das Ordenanças apresentavam variação de uma localidade para outra. Nas estampas número 20 e 21 da obra  Uniformes do Exército Brasileiro de Wasth Rodrigues e Barroso, podemos observar essa variação nas fardas do Rio de Janeiro do ano de 1786. (BARROSO, 1922)

Na estampa 20, são exibidas respectivamente os Oficiais de Ordenanças de Ilha Grande, Campos, Magé e Macacú. Apesar de apresentar as mesmas cores (vermelho e azul), existe a variação do emprego do vermelho no calção do oficial de Campos, nas gravatas e diferentes padrões dos galões dourados nos canhões, nas véstias, e nos botões dos calções e das véstias.

Na estampa 21, Wasth Rodrigues representou membros das Ordenanças da Cidade do Rio de Janeiro, Cabo Frio e Paraty. o fardamento que mais se distingue dos demais é o do Oficial de Cabo Frio, que exibe casaca e calção na cor branca.

A farda do Oficial de Ordenanças de Julião apresenta a padronagem semelhante de cores dos Oficiais da Cidade do Rio de Janeiro (primeiro da estampa 21) e do Oficial de Campos (segunda da estampa 20) de Wasth Rodrigues. 

Sobre o fornecimento dos uniformes militares, encontramos informações esparsas na documentação e na bibliografia. No século XVIII na comarca de Rio das Velhas (Minas Gerais), Marco Aurélio Drumond encontrou registro de que as fardas eram confeccionadas na metrópole e enviadas aos soldados, com desconto dos custos no soldo. O autor também relatou ter encontrado fardas em estoque de lojas (DRUMOND, 2008).

Para a vila de Itu (Capitania de São Paulo) entre a segunda metade do século XVIII e início do XIX, localizamos fardas nos espólios de quatro inventariados que pertenciam a companhia de Ordenanças. Nas avaliações das fardas, predomina a menção de “farda de pano azul”, sendo o tenente José Fiusa, inventariado em 1804, dono de duas fardas, a saber, uma comprida de pano azul forrada de amarelo e outra, curta do mesmo tecido. Outro indício de tecido empregado foi encontrado na avaliação do uniforme do tenente da Cavalaria de Coritiba José Manoel Caldeira Machado, que possuía uma farda de pano azul fino com calção e colete de fustão branco. (GUIDO, 2015)

Em relação ao valor de todas as roupas arroladas no inventário, as fardas representavam 30, 34 e 41%. Para membros menos afortunados das Ordenanças, o custo do fardamento configurava uma onerosa tarefa. Integrar uma companhia militar simbolizava prestígio, honra e distinguia socialmente homens que representavam o poder régio no ultramar, mesmo que tal compromisso fosse extremamente dispendioso.

REFERÊNCIAS

  • ALMEIDA, Adílson José de. Uniformes da Guarda Nacional: 1831 – 1852. A indumentária na organização e funcionamento de uma organização armada. Dissertação (Mestrado em História). 1998. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. São Paulo, 1998.
  • BARROSO, Gustavo. Uniformes do Exercito Brasileiro, 1730-1922. Aquarelas e documentação de J. Wasth Rodrigues. Texto e organização por Gustavo Barroso. Publicação Official do Ministerio da Guerra commemorativa do Centenário da Independencia do Brasil. Paris: A. Ferroud, F. Ferroud, 1922.
  • CRISPIN, Ana Carolina Teixeira. Além do acidente pardo. Os oficiais das milícias pardas de Pernambuco e Minas Gerais (1766 – 1807). 188f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História. Niterói. 2011.
  • CUNHA, Lygia Fonseca Fernandes da. Riscos iluminados de figurinhas de brancos e negros dos uzos do Rio de Janeiro e Serro Frio.Rio de Janeiro, 1960.
  • DRUMOND, Marco Aurélio. Indumentária e Cultura Material: Produção, comércio e usos na Comarca do Rio das Velhas (1711 – 1750). 2008. 217f. Dissertação (Mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte. 2008.
  • GUIDO, Ligia Souza. Sob capas e mantos: roupa e cultura material na Vila de Itu, 1765 – 1808. 220f. Dissertação (Mestrado em História). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas. 2015.
  • MELLO, Christiane Figueiredo Pagano de. Forças militares no Brasil Colonial: Corpos de Auxiliares e de Ordenanças na segunda metade do Século XVIII. Rio de Janeiro: E-Papers, 2009.
  • RODRIGUES, José Wasth. Tropas paulistas de outrora. São Paulo: Governo do Estado, 1978. Coleção Paulística, v. 10.
  • SILVA, Valéria Piccoli Gabriel da. Figurinhas de brancos e negros: Carlos Julião e o mundo colonial português. Tese (Doutorado – Área de Concentração: História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo). 2010. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo. 2010.
  • Site consultado: <http://www.63bi.eb.mil.br/historico> . Acesso em 20 jan. 2020.
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