As surpreendentes cores do século 18 brasileiro

por Laleska Vieira, Designer de Moda

Ao darmos asas à nossa imaginação a respeito do século 18, normalmente nos vêm à mente os dramáticos paniers e poufs, tons pastel, brocados e musselinas da moda europeia, dignas de Rose Bertin e Maria Antonieta. Porém, ao estudarmos as aquarelas de Carlos Julião para o Traje Brasilis, percebemos um século 18 bastante distinto das modes europeias, mas não menos interessantes! Por isso vamos, nesse artigo, analisar as diferenças entre as modes europeias e as modas brasileiras.

Aquarela de Carlos Julião (Prancha XXII) representando damas de classe média-alta, cerca de 1780. Aqui pode-se perceber, além de um robe à la anglaise típico do período (segunda figura à esquerda), uma mulher usando um bunyan (primeira figura à esquerda).

Apesar do status de Colônia, o Brasil do século 18 florescia econômica e socialmente. A descoberta de ouro nas Minas Gerais, aliada à já estabelecida cultura açucareira nordestina, deram o tom da economia colonial brasileira. Todo tipo de gente o habitava, de diversas classes sociais: desde os africanos e indígenas, aos europeus e seus descendentes nascidos na Colônia.
A riqueza de cores, a preferência por tecidos leves e o uso de roupas com pouca ou nenhuma estrutura no ambiente doméstico (esse hábito visto como escandaloso por forasteiros europeus em viagem pela Colônia) são elementos significativos ao se pensar nas diferenças existentes entre trajes europeus e brasileiros. O clima quente e úmido brasileiro não era propício para as típicas toilettes elaboradas das europeias, e muitas brasileiras tinham o hábito escandaloso de ficarem em casa usando apenas suas camisas/chemises e o banyan, um tipo de casaco originário dos países orientais, que remete muito ao atual robe, ou peignoir!

À esquerda: um retrato francês de autoria desconhecida, cerca de 1740. Há um exemplar de um banyan bastante similar no Victoria and Albert Museum. À direita: aquarela de Carlos Julião, cerca de 1780.

Ainda que haja um intervalo de tempo entre as duas imagens, percebe-se que as cores presentes nas duas representações diferem significativamente, além dos tecidos utilizados nos trajes, onde a primeira imagem sugere o uso de um típico brocado jacquard francês, enquanto aqui no Brasil tecidos como linho e algodão em diversas gramaturas eram preferidos por sua respirabilidade e frescor.
A seguir, temos duas figuras para comparação do mesmo traje: o robe à l’anglaise. Uma delas é um destaque da aquarela de Julião apresentada anteriormente, mas a outra é uma fashion plate europeia da Gallerie des Modes. Mas, afinal, o que é uma fashion plate?

As fashion plates são ilustrações (pranchas) de moda, que apesar de terem surgido juntamente com a imprensa (por volta do século 16), começam a ser disseminadas a partir da segunda metade do século 18 através de publicações como a Gallerie des Modes e The Journal of Ladies and Fashion. Descendentes diretas das bonecas Pandoras, foram um meio acessível de difundir a moda de Paris para o mundo, retratando os estilos de indumentária em voga, inspirando modistas e, também, clientes. Os trajes das fashion plates muitas vezes aparecem de forma a ilustrar claramente as novas tendências, de uma maneira que pode até mesmo ser considerada um pouco caricata!

À esquerda: fashion plate europeia da Gallerie des Modes, cerca de 1780. À direita: Aquarela de Carlos Julião, cerca de 1780.

Pode-se perceber, ao analisar as figuras, que enquanto em boa parte dos trajes europeus predominam os tons pastel, os poufs, o uso evidente de estruturas e uma infinidade de adornos nas roupas, nos trajes brasileiros retratados por Julião pode-se perceber, além de uma moda nem de longe tão “atrasada” quanto se imaginaria, a forte presença de cores vivas, estas presentes inclusive no traje dos escravos de ganho e até hoje associadas à América Latina e à África. Essas cores vivas, oriundas principalmente de corantes naturais, são vistas em diversos trabalhos têxteis indígenas e africanos e podem sim, significativamente, representar uma herança destes povos no senso estético brasileiro e latino-americano.

REFERÊNCIAS

  • CUNHA, Lygia da Fonseca Fernandes da; JULIÃO, Carlos. Riscos illuminados de figurinhos de brancos e negros dos uzos do Rio de Janeiro e Serro do Frio/ aquarelas por Carlos Julião; introdução histórica e catálogo descritivo por Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha. Disponível em formato digital aqui. Acesso em 15 out 19.
  • DEL PRIORE, Mary. História das Mulheres do Brasil. São Paulo: Editora UNESP, 2004.
  • NEVINSON, John L. Origin and Early History Of the Fashion Plate (em inglês). Disponível em formato digital aqui. . Acesso em 15 out 19.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *