Carlos Julião, um italiano no Brasil do século 18

Por Ligia Guido, Mestra em História do Brasil Colônia

Enquanto a obra de Carlos Julião é razoavelmente bem conhecida, sua biografia ainda é cheia de lacunas e incertezas. Sabe-se que ele era italiano, militar de carreira e que atuou em diferentes partes do Império Português, primeiramente em Portugal e depois nos domínios ultramarinos.

Como aponta Valéria Piccoli (2010), a biografia de Carlos Julião ainda carece de mais dados, devido à dispersão da documentação. Alguns autores referiam-se a Julião como engenheiro militar, porém a autora não encontrou evidências de que ele tenha tido uma formação específica nessa área. Piccoli também observou que Julião realizou tarefas e projetos que esbarravam nas atribuições de um engenheiro militar no século 18 , como levantamento de plantas, fortificações de possessões portuguesas nas Índias e na América, o que talvez promova essa associação. Sua formação em Turim  o diferenciava em Portugal, especialmente na capacidade artística em desenvolver desenhos, esculturas e artigos de fundição.

Natural de Turim, Carlos Julião teria se dirigido à Portugal em 1763 já com uma formação militar e ingressado na carreira como segundo-tenente do corpo de bombeiros do Regimento de Artilharia de Lagos até sua extinção em 1774. Com a reformulação do Exército Português, foi realocado a uma Regimento que se dirigia às Índias. Piccoli acredita que Julião tenha se estabelecido em Goa – sede do Estado Português da Índia. Dessa estadia de aproximadamente cinco anos, consta uma viagem oficial a Macau (China), onde realizou um levantamento das plantas para o Governo Português.

Configuração da Entrada da Barra de Goa, c. 1779. Aquarela atribuída a Carlos Julião

Na viagem de retorno da Ásia, a embarcação de Julião teria ancorado em terras brasileiras. Seu desenho sobre a cidade de Salvador Elevação e fachada data de maio de 1779. Nos registros encontrados na documentação por Valéria Piccoli, Carlos Julião retornou à Lisboa em julho de 1780. Pelos cálculos dos tempos de viagem, a permanência no Brasil tenha durado por volta de um ano. Pela sua produção iconográfica, pode-se supor que Julião tenha visitado Serro Frio (Minas Gerais) e o Rio de Janeiro, além de Salvador.

A cidade de Salvador vista do mar, com detalhes dos formatos de suas fortificações e ilustrações dos trajes e costumes locais.

Estabelecido novamente em Portugal, atuou por quinze anos no Regimento de Artilharia da Corte, e a partir de 1795, no Arsenal Real do Exército, com patente de sargento-mor. Segundo Piccoli, o Arsenal era um importante centro de formação artística, com aulas de Aula de Desenho, Gravura e Metalurgia.

Sempre elogiado nos relatórios de seus superiores, Julião assumiu em 1807 o posto de inspetor do Arsenal, substituindo Carlos Antonio Napione, que acompanhou a corte portuguesa ao Brasil. Carlos Julião faleceu em 1811, trabalhando no Quartel General de Santa Clara, já idoso. Sua carta patente de brigadeiro chegaria apenas em 1813.

A OBRA DE CARLOS JULIÃO SOBRE A AMÉRICA PORTUGUESA

Na obra Elevação e Fachada, Julião abordou o sistema de defesa da cidade de Salvador, retratando os fortes, o posicionamento geográfico e a capacidade da artilharia de cada um dos equipamentos defensivos e da planta, demonstrando o padrão de desenho e informações condizentes à uma documentação militar do século XVIII. O diferencial do desenho de Julião é apresentar na parte abaixo tipos humanos do espaço urbano de Salvador.

É atribuído a Carlos Julião um volume composto por três obras, posteriormente desmembradas. A parte central denominada Riscos illuminados de figurinhos de brancos e negros dos uzos do Rio de Janeiro e Serro do Frio não possui indicação nem assinatura de Julião, mas a ele foi atribuída pela semelhança nos estilos de desenho e pintura com as outras partes.

A obra de Carlos Julião é um documentos visuais mais significativos que temos para entender as modas do Brasil Colônia. Dentre as aquarelas, encontramos representações de uniformes militares, de indígenas “civilizados” e “selvagens”, mulheres sendo transportadas em redes, cadeirinhas e liteiras, cenas do comércio ambulante nas ruas e até caçadas. Estas aquarelas, chamadas de pranchas, possuem poucos detalhes de cenário e ênfase do desenho está nos trajes em si, que são representados de forma detalhada. Informações como acessórios e padronagens de tecidos ficam bem evidentes e nos dão uma noção de cores e texturas da época. Dentre todas as pranchas do conjunto, as mais divulgadas são as que retratam as festas de encenação da coroação dos reis e rainhas do Congo (estampas número 35 a 39), que se destacam por trazer uma representação da indumentária afrobrasileira completamente diferente do que se vê nas produções que tratam sobre o tema da escravidão no Brasil Colônia.

Nesse link você pode acessar a versão digital das aquarelas de Julião,disponibilizadas pelo Portal da Câmara dos Deputados.

Referências bibliográficas

CUNHA, Ligia Fonseca Fernandes da. Riscos iluminados de figurinhas de brancos e negros dos uzos do Rio de Janeiro e Serro Frio. Rio de Janeiro, 1960.

SILVA, Valéria Piccoli Gabriel da. Figurinhas de brancos e negros: Carlos Julião e o mundo colonial português. Tese (Doutorado – Área de Concentração: História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo). 2010. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2010.

 

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