Carlos Julião: uma crônica imagética da dinâmica social da Colônia

Por Eneida Queiroz, Mestra em História do Brasil

O projeto Traje Brasilis recriará trajes presentes nas aquarelas de Carlos Julião, reunidas no livro: “Riscos Iluminados de Figurinhos de Negros e Brancos dos Uzos do Rio de Janeiro e Serro Frio”, o qual apresenta 43 pranchas com aquarelas coloridas, onde são explorados os aspectos sociológicos da então colônia portuguesa: a elite branca; a população negra nos seus afazeres, nas suas festas; e os indígenas, alguns já influenciados pela cultura europeia.

Não há certeza sobre a data exata em que Carlos Julião esteve no Brasil, mas foi ao final do século XVIII, entre 1776 e 1799. E como chegamos a esse recorte temporal?

1) Sabemos que foi em data posterior à 1776, por inferência da alegoria representada na prancha I, referente à vitória dos portugueses sobre os espanhóis, por ocasião da tomada e capitulação do Forte de Santa Tecla a 23 de março de 1776, quando o Sargento-mor. Rafael Pinto Bandeira se encontrava a frente das tropas brasileiras.

Prancha I

2)  Além disso, há um documento do ano de 1800, assinado pelo próprio Carlos Julião, informando que neste corrente ano ele já servia o Exército português há 37 anos, já tendo feito algumas viagens ao Brasil, Índia, China, sendo a mais importante a que fez à Índia, onde permaneceu por 6 anos.

Pelas roupas vistas em suas aquarelas, ainda muito distantes das influências pós-revolucionárias da Europa de 1789, acreditamos que Carlos Julião esteve no Brasil, mais precisamente entre as capitanias do Rio de Janeiro e das Minas Gerais (chegando inclusive ao longínquo Distrito Diamantino), provavelmente entre 1777 e os primeiros anos da década de 1780.

Por que Serro Frio? A descoberta de ouro e diamantes no Brasil

Isso posto, se Carlos Julião apresenta os tipos sociais que habitavam o Rio de Janeiro e a cidade de Serro Frio (região do então distrito diamantino, hoje pertencente ao estado de Minas Gerais), com seus trajes e costumes: é importante sabermos como estava conformada a população e a hierarquia social nessas regiões do Brasil Colônia.

PRANCHA XVIII

Desde o início da colonização (no século XVI), os portugueses procuraram ouro no Brasil, só encontrando esse metal precioso na última década de do século XVII. Embora tenham transcorrido quase 200 anos de buscas, não podemos dizer que entre 1500 e 1690 inexistiram notícias de ouro no Brasil. No entanto, os primeiros achados ou eram “ouro de tolo” ou eram poucas quantidades de ouro legítimo. Os bandeirantes seguiam buscando, até que na região das Gerais (adentrando bastante os “Sertões de Taubaté”) finalmente encontraram datas auríferas com grandes quantidades de minério: foi na década de 1690 que ocorreram essas primeiras descobertas significativas, na região do Rio das Mortes, ao sul do que hoje é Minas Gerais. E logo também descobriram ouro no Rio das Velhas e, ainda mais ao norte, na Serra do Espinhaço (onde se encontram Sabará, Ouro Preto, Serro e Diamantina). Pedras preciosas também: sendo o diamante a mais valiosa delas aqui encontrada.

Como se dividia a região das Minas no século 18.

FONTE: CUNHA,, Alexandre. (2007). Espaço, paisagem e população: dinâmicas espaciais e movimentos da população na leitura das vilas do ouro em Minas Gerais ao começo do século XIX. Revista Brasileira de História. 27. 10.1590/S0102-01882007000100006.

A notícia de ouro logo chegou aos mais longínquos pontos da Colônia e da Metrópole e, em pouco tempo, afluíram novas levas de migrantes. Entre os colonos, tanto os do litorâneo Nordeste açucareiro quanto os do interiorano Nordeste vaqueiro, atravessaram os sertões da Bahia ao longo do Rio São Francisco, em direção às Minas Gerais. Migrações vieram até da capitania do Rio de Janeiro, de Portugal e de outros países da Europa.

Os grandes episódios de fome de 1701, que mataram vários arraiais nascentes, deram o alerta a muitos colonos e à própria coroa portuguesa: eram necessários organização e comando naquele processo caótico de ganância desenfreada. Fazendas ao redor das minas foram surgindo, assim como uma classe média de escribas, comerciantes, párocos, construtores e funcionários públicos para coleta de impostos e vigilância dos caminhos do ouro.

Nesses primórdios da mineração, 8 “Vilas do Ouro” foram criadas, ainda antes da emancipação política da Capitania de Minas em 1720, fruto do desmembramento da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. A ordem de criação das vilas foi: 1ª) Mariana; 2ª) Ouro Preto; 3ª) Sabará (as três criadas em 1711); 4ª) São João Del Rey (1713); 5ª) Caeté (1714); 6ª) Serro (1715); 7ª) Pitangui (1718) e 8ª) São José Del Rey – hoje Tiradentes (1718).

Porto de escoamento do ouro a Portugal, o Rio de Janeiro se viu sob sério ataque francês em 1710 e 1711. O Rio de janeiro só se torna capital da Colônia (que antes era Salvador), justamente no século XVIII (em 1763), em razão tanto da intensificação da atividade mineradora na capitania de Minas Gerais quanto das questões fronteiriças na região sul da Colônia: a capital não podia mais estar tão distante.

REFERÊNCIAS

  • CUNHA, Alexandre. (2007). Espaço, paisagem e população: dinâmicas espaciais e movimentos da população na leitura das vilas do ouro em Minas Gerais ao começo do século XIX. Revista Brasileira de História. 27. 10.1590/S0102-01882007000100006.
  • CUNHA, Lygia Fonseca Fernandes da. Riscos iluminados de figurinhas de brancos e negros dos uzos do Rio de Janeiro e Serro FrioRio de Janeiro, 1960.
  • PICCOLI, Valéria. Figurinhas de Brancos e Negros: Carlos Julião e o mundo Português. Tese de Doutorado USP, 2010.
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