Desenrolando a linha: história da moda, do traje ou da indumentária?

Por Laleska Vieira, Mestranda em Educação (MPET-IFSul)

Para começar um trabalho de recriação histórica de trajes, fazer uma pesquisa detalhada é mais do que necessário para atingir bons resultados. E, ao começar a pesquisa, é comum se deparar com três termos: história do traje, história da moda e história da indumentária. A presença de todos esses termos pode ser confusa, fazendo até os pesquisadores mais arrojados perderem o fio da meada: qual é a pesquisa que se deve fazer? Em quais fontes devo focar? Afinal, realmente existe diferença entre as três?

Alguma resposta já se pode adiantar por aqui: sim, existe diferença! E a pesquisa que deve ser feita depende do teu critério, não existindo essa dicotomia de “certo e errado”.  Como o Traje Brasilis está trabalhando com recriação de trajes brasileiros, essa interpretação nos serve bem, pois o Brasil é um país ocidental que se formou a partir do século 16, durante a Idade Moderna, coincidentemente no mesmo período em que começa a se estabelecer o fenômeno social da Moda. Em outros contextos, o ideal é analisar essas questões com a partir de diferentes pontos de vista, uma vez que a interdisciplinaridade, segundo Roland Barthes e Paulo Debom, é fundamental para entender propriamente essas questões.

“Mulheres livres de cor e e seus servos em uma paisagem”, de Agostino Brunias, c. 1764.

Vamos começar pelo traje, esse que é o conceito menos abrangente. O traje é expressão individual: varia conforme o gosto ou a intenção da pessoa que o veste. E esse traje pode ter uma relevância temporal (a moda) ou uma conotação social (a indumentária), possuindo influência de um destes aspectos ou dos dois ao mesmo tempo. Pesquisar o traje é pesquisar, principalmente, sua construção: os materiais de que é feito, as técnicas necessárias para a confecção (aqui no site há alguns tutoriais incríveis para recriar trajes históricos, vale a pena conferir!), o período histórico do qual faz parte, por quem e para quem era feito.

Paulo Debom afirma que “nos trajes entrecruzam-se diversos elementos simbólicos que edificam uma época. As vestes permitem leituras enviesadas que caminham pelas mais diversas esferas do pensamento, da política e da economia” O período histórico e as pessoas que vestem (ou confeccionam) o traje formam o contexto que este se insere, e a história da indumentária trata desse contexto geral que faz a roupa ganhar um significado além do gosto pessoal ou da ocasião.

Prancha XXXVII de Carlos Julião. A aquarela mostra o que se acredita ser o cortejo de uma Congada, com personagens negros tocando instrumentos musicais e vestindo trajes que misturam influências europeias, asiáticas e africanas. Para ler mais sobre essas representações, clique aqui.

Agora, ao falar de Moda, esse fenômeno que ainda causa opiniões controversas a respeito de relevância, pode-se dizer que abrange e influencia muito além da roupa: a Moda influencia comportamentos, valores, necessidades e, por fim, roupas. Roland Barthes (1915-1980) foi um dos pioneiros no estudo da Moda enquanto fenômeno, e seu livro Sistema da Moda (publicado em 1969) é uma referência para pesquisadores da área. Concebida enquanto um modo de diferenciação das classes aristocráticas da burguesia ascendente e das classes trabalhadoras, a Moda desde então fomenta o consumo e determina modos: modos de vestir, de se comportar, de falar e até mesmo de pensar. Tais modos permanecem em evidência até que adotados por boa parte da população: ao se tornar comum, inventa-se uma nova moda. Por isso, a moda é relevância temporal: vigente por um prazo determinado até cair no esquecimento, indo da aclamação total ao desprezo geral. 

Detalhe do quadro “Retrato de Família No Lago”, de Charles Philipps. Primeira metade do século 18.
Observe que todas as mulheres vestem exatamente o mesmo modelo de vestido, com pequenas variações de cores, texturas e decorações que criam individualidade e ainda refletem as linhas gerais da silhueta característica da época.

Um traje é mais do que tecidos unidos para cobrir o corpo: podem trazer informações preciosas a respeito de uma pessoa, de uma época e de uma cultura, nos contando segredos profundos de algo que parece ser “fútil e superficial”. Por isso, de uma maneira bastante sucinta, temos aqui os conceitos que guiam a pesquisa que trazemos no Traje Brasilis, e que podem também nortear a sua pesquisa! 

REFERÊNCIAS

  • BARTHES, Roland. Sistema da Moda. São Paulo: editora Martins Fontes, 2008.
  • DEBOM, Paulo. A Moda como Objeto do Pensamento. Veredas da História, v. 9, p. 23-47, 2016.
  • ____________. A moda e o vestuário como objetos de estudo na História. Revista de Ensino em Artes, Moda e Design, v. 3, p. 13-26, 2019.
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