Glossário: Bedgown / Manteau-de-lit

O bedgown (em francês, manteau-de-lit) é um casaco feminino de modelagem ampla, não ajustado, com comprimento médio até a altura do quadril e fechado com alfinetes ou amarrações ao redor do tronco. Uma de suas características mais distintas é a presença de mangas cortadas numa única peça com o tronco, longas e retas, à semelhança das mangas do quimão.

Referido em fontes da época como uma peça doméstica muito informal, ele seria usado pelas mulheres de classe alta ao sair da cama ou imediatamente antes de se recolher ao leito. Todavia, o bedgown era uma peça de uso corrente no dia-a-dia de trabalhadoras urbanas europeias já nos anos 1730, sendo registrada entre mulheres da área rural desde a década de 1750. Devido a esse caráter popular, variações da peça já no século 19 e 20 são encontradas em coleções museológicas, além de registradas em inventários, correspondências pessoais e memórias.

Em seu estudo sobre os bedgowns em coleções museológicas dos Estados Unidos, Claudia Kidwell (2013) argumenta que uma das possíveis explicações para a popularidade dessa peça entre mulheres de classes baixas seria de ordem financeira: o bedgown é uma peça muito mais econômica do que outros estilos de vestimenta do mesmo período. Sua modelagem e técnicas de confecção permitiam um uso menor de tecido e o fato de ser uma peça ampla e regulável no tronco contemplava variações de tamanho corporal, inclusive as sucessivas gestações que marcavam o cotidiano feminino da época. A modelagem da peça e o tratamento dado ao tecido na confecção também permitiam o reaproveitamento do material.

No entanto, a sobrevivência de peças confeccionadas em materiais nobres sinaliza a popularidade desse estilo de casaco também entre mulheres de classe média e classe média alta. Em um estudo de 2016, Clare Rose analisou um grupo do que ela chama de “non-working bedgowns” existentes em coleções de museus britânicos. São peças confeccionadas em tecidos de valor elevado e/ou usando técnicas de confecção que exigiam um uso maior de material. Analisando questões técnicas e sociais em torno dessas peças, Rose sinaliza um possível uso do bedgown entre mulheres de posses não apenas como uma peça para sair da cama, mas como um traje informal de uso em espaços domésticos, para atividades do dia-a-dia e momento de lazer.

CONSTRUÇÃO

Um dos primeiros registros conhecidos da modelagem de um bedgown é a proposta de Garsault em L’Art du tailleur (1760):

Podemos observar que a modelagem se baseia em linhas retas, de um modo muito semelhantes às chemises, o que permitia um melhor e mais econômico aproveitamento do tecido. Porém, ao observar as peças originais preservadas em museus, constatamos a existência de variações de modelagem:

County Museum of Gotland, Suécia. Último quarto do século 18.

Uma proposta de modelagem a partir de modelos originais suecos foi desenvolvida pela Duran Textiles (2017):

Estudando peças do mundo anglo-saxão, Kidwell encontrou ainda mais variações de modelagem, inclusive com a presença de piecing, uma prática de emendar partes do tecido para completar o molde.

Em acervos encontram-se peças com ou sem forro. Kidwell teoria que as peças sem forro, geralmente feitas de linho cru ou lã, pertenceriam ao guarda-roupa de mulheres trabalhadoras ou seriam usados em temperaturas elevadas.

Com relação aos materiais, encontram-se registros variados. As peças sobreviventes em museus são em sua maioria de linho, algodão ou lã. Embora haja peças de seda, elas representam um número pequeno nesse universo. Encontram-se tecidos estampados com os padrões típicos do século 18 (florais e listras são bastante comuns) e não são raros os exemplos de peças confeccionadas com tecidos produzidos duas ou três décadas antes, o que pode ser um indício tanto da circulação desses materiais quanto das práticas de reutilização de tecidos.

REGISTROS NA ARTE

O uso de bedgowns foi muito mais registrado na arte do século 18 do que em qualquer outro meio. Na tradição europeia da pintura de gênero, é comum encontrar representações dessa peça como parte do traje de criadas, camponesas e trabalhadoras em geral:

Atribuído a AndreBouyus, 1750-1780
Jean Chardin, 1738.
Pehr Hilleström, 1775

No continente americano encontramos representações do bedgown sendo usado por mulheres negras. Em alguns registros, ele é usado por mulheres escravizadas. Na pintura a seguir, de 1790, a ama-seca à direita usa um bedgown mais curto, já sob influência das mudanças de silhueta típicas da década:

Alexander Spotswood Payne and John Robert Dandridge Payne com sua ama. Artista desconhecido, 1790-1803.Museu de Belas Artes da Virginia, Estados Unidos.

Na região do Caribe, Agostino Brunias também registrou seu uso:

POSSÍVEIS BEDGOWNS NA OBRA DE CARLOS JULIÃO

Estudando as aquarelas de Julião, muitas vezes me deparei com representações que não correspondem totalmente às características das peças nas descrições ou ilustrações europeias. Por conta disso, o trabalho de recriação de peças dessas aquarelas acaba se tornando um trabalho de interpretação e muito levantamento de hipóteses. Isso se torna ainda mais evidente quando é necessário recriar uma peça que está parcialmente encoberta, como é o caso de muitas figuras femininas com casacos ou mantos.

Prancha XXIX

Na prancha 29, a figura da esquerda tem o tronco parcialmente coberto por um manto, o que torna bastante difícil o trabalho de identificar claramente a peça estampada que é usada embaixo dele. Caso semelhante às figuras da prancha 25:

No caso específico da figura 29, acredito que se trate de uma das tantas variantes do bedgown, produzida com um dos típicos algodões estampados do final do século 18, possivelmente uma chita de alcobaça.

REFERÊNCIAS

GARSAULT. Art du tailleur: contenant le tailleur d’habits d’hommes, les culottes de peau, le tailleur de corps de femmes & enfants, la couturiere, & la marchande de modes. Disponível aqui.

KIDWELL, Claudia. Short Gowns, Dress, 4:1, 30-65. Disponível na internet aqui. Acesso em 15 fev 2020.

ROSE, Clare. A Group of Embroidered Eighteenth-Century Bedgowns, Costume, 30:1, 70-84. Disponível na internet aqui. Acesso em 15 fev 2020.

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