Glossário: Bolsos femininos no século 18

Por Pauline Kisner, historiadora

Muito embora os bolsos femininos não sejam citados diretamente na obra de Carlos Julião, podemos especular com certa segurança que eles estavam ali, escondidos sob as camadas de saias e capotes. Numa época em que as bolsas femininas como as conhecemos não existiam, era comum que as mulheres utilizassem bolsos internos removíveis, escondidos sob a saias, acessíveis através de um cuidadoso sistema de pregas na própria roupa:

Recriação de uma anágua do século 18, mostrando o sistema de fechamento lateral que permitia o acesso aos bolsos. Fonte: Yesterday’s Thimble.

Os bolsos do século 18 são considerados como parte da roupa íntima feminina. Eram frequentemente amarrados à cintura, por cima ou por baixo dos stays:

“Tight Lacing or Fashion Before Ease” (James GILLRAY, c. 1790)

Em algumas representações artísticas da época também podemos encontrar indícios de um possível uso desses bolsos como peças externas, especialmente entre mulheres das classes trabalhadoras:

“Ervilhas frescas recém-colhidas” (Francis WHEATLEY, c. 1795), parte da série “Cries of London”.

Como peças essencialmente funcionais, que se destinavam a guardar dinheiro e pertences da mulher, me parece pouco provável que as quitandeiras representadas na obra de Julião não tivessem um desses bolsos sob a saia para transportar e proteger os ganhos do dia. Especialmente porque os bolsos removíveis não são uma novidade criada pelo século 18: trajes com aberturas escondidas que permitiam acessar pequena bolsas ocultas sob a roupa são encontradas na indumentária europeia pelo menos desde o Renascimento.

A ANATOMIA DOS BOLSOS DO SÉCULO 18

Os bolsos do século 18 são formados por duas camadas de tecidos unidas por costuras na lateral e topo. A camada da frete tem um abertura vertical que permite acessar o conteúdo dos bolsos. Esse modelo da Nova Inglaterra (Estados Unidos, 1725-1800), parte do acervo do Museu Winterthur, ilustra bem a construção:

O museu informa as dimensões da peça: 42.5cm de comprimento x 27,3cm de largura, medidos com a peça em repouso.

Sendo uma peça comum e usada em todas as classes sociais, muitos bolsos eram feitos em casa, possivelmente como parte da aprendizagem de costura e bordado das meninas. Assim, não existe uma construção única como acontece com estilos específicos de vestido do período. Há, porém, algumas características que prevalecem nas peças em acervos de museus:

  • FORMATO – lembrando a forma de uma pêra, frequentemente irregular, o que reforça a ideia de serem peças de confecção caseira e/ou amadora.
Bolso de origem inglesa, c. 1750. Base de linho com bordado em seda vermelha. 37.47cm x 19.69cm. LACMA.
  • ACABAMENTO – com fitas de linho ou algodão e mais raramente, seda. Possivelmente viés, em alguns casos.
Inglaterra, 1700-1725. Medidas: 48cm (altura) x 23.5cm (largura). Victoria & Albert Museum.
  • TECIDOS – são usados pelo menos dois tecidos (frente e costas), sendo que emendas são comuns, o que indica o reaproveitamento de sobras de tecido de outras peças. Igualmente comum é que frente e costas sejam feitas em tecidos de qualidade diferente. As fibras predominantes são linho, lã (principalmente em peças de origem popular) e mais raramente algodão. Seda é a fibra mais rara, possivelmente devido ao preço elevado e ao fato de que as sobras eram reaproveitadas para elementos de decoração dos próprios trajes.
  • TÉCNICAS DE DECORAÇÃO – bordado livre com temas florais (usando linhas de lã e seda), quilting e patchwork são encontrados com maior frequência.

Uso de bolsos no Império Português

A maioria das peças digitalizadas e disponíveis na Internet são de procedência britânica, seguidas pelas estadunidenses, francesas e alemãs. Devido à ausência de peças portuguesas, entramos em contato com o Museu do Traje em Lisboa à procura de bolsos não digitalizados, que nos informou não possuir nenhuma peça em acervo. Porém, registra-se no museu a existência de saias e anáguas com as aberturas laterais que permitiriam o acesso aos bolsos e a equipe do museu trabalha com a possibilidade de que as mulheres portuguesas fizessem uso desses bolsos no século 18, possivelmente com modelos de influência francesa. Esta anágua quiltada é um das peças que traz a abertura lateral para apenas um bolso:

c. 1770. Museu Nacional do Traje e da Moda.

COMO FAZER

Quer aprender a fazer um bolso (ou um par de bolsos) do século 18? Confira aqui nosso tutorial.

REFERÊNCIAS

  • ARNOLD, Janet. Patterns of Fashion 1 (cut and construction of women’s clothing, 1660-1860) –Wace 1964, Macmillan 1972.
  • HARRISON, Anna; GILL, Kathryn. An Eighteenth-Century Detachable Pocket etand Baby’s Cap, Found Concealed in a Wall Cavity: Conservation and Research. Textile History, 33 (2), 177-194,2002. pp. 177-192.
  • KÖHLER, Carl. História do Vestuário. Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo, 1996.
  • RIBEIRO, Aileen. Dress in Eighteenth-Century Europe 1715-1789. Washington: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, 2002.
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