Glossário: Fly Fringe

Por Bel Franke, Mestra em Antropologia Social

Em seu Vocabulário Português e Latino, editado em Lisboa entre 1712 e 1728, Rafael Bluteau (1712-1728, p. 4094, v. 5) faz a seguinte consideração no verbete sobre moda:

Moda: o modo de trajar, falar ou fazer qualquer coisa conforme o costume novamente introduzido. Antigamente não havia modos no trajo como nem ainda hoje as há em todo o Levante. Parece razoável a continuação desta uniformidade no vestir, porque os vestidos se fizeram para cobrir o corpo, e como todos os corpos humanos, em todo o tempo são na figura os mesmos, é muito para estranhar a prodigiosa mudança de vestiduras, que umas às outras continuamente se seguem. E assim os inventores das modas, não são a gente mais sisuda da República; ordinariamente são mulheres e moços do Norte incitados por mercadores e artífices que não tem outro fim que a própria conveniência. Esta perpetua a variedade de ornatos não deixa de ter perniciosas consequências; os que a não seguem parecem ridículos, os que com ela se conformam, desperdiçam patrimônios (…).

O trecho em itálico destaca a percepção de Bluteau sobre as constantes mudanças dos trajes e de seus ornatos. De fato, no século XVIII os ornamentos e elementos decorativos como galões, passamanarias, franjas e rendas vão ser cada mais diversificados e elaborados, atingindo o ápice na segunda metade do século até finalmente saírem de moda antes da chegada dos anos 1900. Um dos ornamentos mais característicos desse período são as fly fringes, um tipo de franja em tufos aplicada às peças do vestuário feminino, principalmente entre as décadas de 1730 e 1780.

Detalhe de um vestido com fly fringes coloridas, 1775–80. Acervo do Museu Metropolitano de Nova York.

Existem poucos textos acessíveis sobre fly fringe em inglês e francês, e em português o assunto é praticamente inexistente. Aqueles que tratam do assunto são sucintos como verbetes, e pouco dizem sobre as técnicas de confecção e estilos. A própria origem dos termos é desconhecida. Não encontrei um nome em português para essas franjas. Em inglês, fly fringe pode ser traduzido livremente como “franja de mosca” e alguns autores sugerem uma relação com iscas artificiais utilizadas em pesca ou com um artefato utilizado para proteger os olhos de cavalos da infestação de moscas. No francês, esses ornamentos são chamados de sourcils d’hanneton, literalmente “sobrancelha de besouro”, em referência a uma espécie de besouro da família dos escaravelhos que possui antenas com a forma de penachos. Continuando a comparação com insetos, poderíamos propor a expressão “franja mosquito” como tradução para o português, já que os tufos fazem alusão ao movimento das asas de mosquitinhos quando voam.

Um hanneton, o besouro Melolontha melolontha.

O estudo desses ornamentos limita-se, portanto, aos exemplares que encontramos nos acervos de museus, seja em peças do vestuário ou em amostras e fragmentos de passamanarias do período.

Fragmentos de guirlandas com fly fringes colecionados por Louis-François-Armand de Vignerot Du Plessis Richelieu, 1735. Biblioteca Nacional da França.

As fly fringes são feitas com fios de seda sem torção com dois nós simples que podem ou não receber adições, inclusive de outras cores, formando padrões. A partir da observação de diferentes peças preservadas do período, reconstruí com linha 100% viscose algumas unidades básicas de fly fringes. Essas unidades podem ser incorporadas às passamanarias confeccionadas em teares, unidas a uma linha através de nós ou por uma corrente de crochê, ou, ainda, serem costuradas individualmente nas roupas.

Unidades básicas de fly fringes reconstruídas. No canto superior à esquerda, a unidade mais básica de todas com apenas dois nós simples. Créditos: Bel Franke

Nos vestidos, encontramos fly fringes aplicadas como acabamento de frills, faixas de tecidos franzidas ou com pregas utilizadas como ornamentos. Elas também aparecem em golas e mangas, assim como no stomacher, o painel triangular que preenche a abertura frontal do corpete ou do vestido. Outras peças também recebiam as franjas: toucados, enfeites de cabelo, braceletes e retículas. A partir de 1760, passam a copiar as composições e cores das estampas dos vestidos, criando buquês tridimensionais (PARMAL, 1996).

Entre as vestimentas retratadas por Carlos Julião que estamos reconstruindo, poderíamos encontrar fly fringes nos trajes mais formais e elitizados, como o robe à la française usado pela rainha negra ou no robe a l’anglaise da segunda figurinha na prancha XXII, tanto como acabamento da gola e da manga pagode.

À esquerda, segunda figurinha da prancha XXII de Carlos Julião. Á direita, robe a l’anglaise com fly fringes nas mangas e gola, 1770 – 1775. Acervo do Museu Metropolitano de Nova York.

REFERÊNCIAS

  • PARMAL, P. A. Fashion and the Growing Importance of the Marchande des Modes in Mid-Eighteenth-Century France. Costume, 31(1), 68–77, 1997.
  • BLUTEAU, R. Vocabulario portuguez, e latino, aulico, anatomico, architectonico, bellico, botanico: autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes, e latinos; e offerecido a El Rey de Portugal D. Joaõ V. Coimbra, Collegio das Artes da Companhia de Jesu: Lisboa, Officina de Pascoal da Sylva, 1712-1728. 8 v; 2 Suplementos.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *