Glossário: Jarreteira/Garrotêa/Liga de perna

Por Pauline Kisner, historiadora

Devido à estrutura de construção e às fibras usadas, as meias do século 18 não eram elásticas e necessitavam de ligas de perna para permanecer no lugar. Estas ligas, que também não eram elásticas como as modernas, eram chamadas de jarreteiras ou garrotêas em português. No Vocabulário Portuguez & Latino de 1789, Antõnio de Moraes Silva define a jarreteira como “a liga de atar a meia”, uma definição bastante genérica e ampla que engloba os diferentes formatos que esse acessório podia ter.

Em suas versões mais populares, a jarreteira podia assumir a forma de uma tira de couro com fivela (usada principalmente, mas não exclusivamente, pelos homens) ou de uma simples fita que podia ser de seda ou até mesma confeccionada com técnica de crochê ou tricô. No entanto, grande parte das peças que sobreviveram em acervos de museus são de uso da elite e nos fornecem um panorama das variações que esse item poderia ter. Mas antes de explorar as possibilidades de modelos de jarreteiras, falemos um pouco sobre seus significados para além de funcionalidade.

JARRETEIRA COMO TEXTO POLÍTICO

Embora a jarreteira tenha nascido como uma peça essencialmente utilitária, ao longo do século 18 ela vai ganhando cada vez mais importância não apenas através das decorações elaboradas, mas também como uma peça capaz de carregar mensagens políticas e eróticas. Durante o último levante jacobita da Escócia, peças como essa carregavam a afiliação política da mulher de forma discreta e segura, conhecida apenas por ela, talvez suas criadas e um marido ou amante:

jarreteira garter liga século 18
Jarreteira escocesa, 1745. Victoria & Albert Museum.
DIMENSÕES: 119cm (comprimento) x 3.3 cm (largura)
Lê-se “Our Prince is brave our cause is just” (Nosso Príncipe é corajoso, nossa causa é justa)

A “Manchester Magazine” de 30 de dezembro de 1746 relata existência de teares adaptados especificamente para a produção de jarreteiras, possivelmente com a técnica que já era usada desde a Idade Média para produção de fitas trançadas estampadas . Um dos modelos sobreviventes traz uma frase que o periódico classifica ironicamente como um frase muito elegante: God preserve PC and down with the Rump, que se traduz como “Deus preserve o Príncipe Charlie e abaixo a Parlamento”:

Jarreteira escocesa, 1745. Museu Britânico.
Aprox. 120cm de comprimento. Largura não informada
“Rump” aqui pode designer o Parlamento de forma pejorativa, mas também faz um trocadilho com as almofadas que as mulheres usavam ara dar forma aos vestidos no quadril e parte traseira.

A JARRETEIRA NAS ARTES

A liga de pernas é um objeto representado com frequência em quadros e gravuras, satíricos ou não, e que aparece sendo usado por indivíduos de diferentes grupos sociais e ocupações. Não necessariamente a representação se dá com um olhar erotizante. Em alguns casos, o fato de ela estar à mostra é usado como uma denúncia contra a pobreza que expõe e humilha o indivíduo. É o caso das gravuras chamadas “Cries of London” (Lamentos de Londres), que ao longo de todo o século 18 retratam a miséria das ruas da cidade e a situação desumana de seus habitantes. Nessa gravura, a mulher passa pelas janelas de trás das casas pedindo por restos de comida e suas vestes estão tão esfarrapadas que deixam à mostra uma peça tão íntima quanto a jarreteira:

“Any Kitchen Stuff”, 1759. Autor desconhecido. Yale Center for British Art.

Em outros casos, ela aparece em gravuras satíricas justamente por ser uma parte indispensável dos trajes ou para reforçar o aspecto do grotesco ou que se trata de uma cena íntima/doméstica:

“Uma velha criada à procura de uma pulga”. 1794. Museu Britânico.

O olhar erótico

Na pintura já é possível perceber uma tendência à representação da jarreteira num contexto de jogos eróticos. Pintores de Corte, como François Boucher e Jean-Honoré Fragonard, e ilustradores, como William Hogarth, exploraram essa relação pintando personagens femininas em posições que suas ligas de perna eram exibidas para o observador.

William HOGARTH, “A Tavern’s Scene” (1732-1735). John Soane Museum.

Essa erotização da jarreteira é reforçada ou confirmada pela existência de numerosos exemplares bordados com frases de amor e trocadilhos de cunho sexual sob o disfarce da amizade, algo típico dos jogos de amor cortês. São frases em francês ou latim e mais raramente inglês, o que se explica pela influência que a França exercia enquanto centro irradiador das tendências de Moda no Ocidente.

Lê-se “A Amizade” (cima) “Nos liga” (baixo). 1799. Museu Nórdico/Europeana.

OS VÁRIOS TIPOS DE JARRETEIRAS

No início do século 18, predominavam modelos mais simples, feitos apenas com fitas lisas ou tecidos com técnica de tablet weaving. À medida em que o século avança, os modelos bordados ganham espaço entre as mulheres ricas. A partir dos anos 1770, as decorações se tornam cada vez mais elaboradas e surgem as jarreteiras elásticas, com a introdução de espirais metálicas e ganchos para fixar a peça:

Peça do início do século 19 com a técnica de espirais do final do século 18. Museu de Belas Artes de Boston.

Os bordados variavam muito em termos de complexidade e havia artesãs especializadas dedicadas às suas confecções nos ateliês de Moda. Boa parte dos modelos bordados em acervos de museus são formados por uma tira central bordada à qual são costuradas as fitas de seda:

c. 1780. Museu Victoria & Albert.

Embora o mais comum seja bordados esparsos, criando desenhos, fitas completamente bordadas também podem ser encontradas, como esse modelo dos Estados Unidos:

c. 1750. Museu Wintherthur.

Uma análise das peças em museus, disponibilizadas em acervos digitais, revela a predominância de linhas de seda e temas florais estilizados, bem ao gosto da estética do século 18. Quanto aos pontos, eles variam muito ao longo do século, mas encontramos com maior frequência ponto haste, ponto atrás, ponto corrente, ponto pé de galinha simples e duplo, ponto cruz americano, ponto cruz alemão, ponto cheio, ponto rede, ponto rococó e ponto falsa margarida. São pontos presentes até hoje nos bordados ocidentais.

Michel GARNIER. “Jovem mulher em sua toilette”. 1796.

REFERÊNCIAS

  • CUNNINGTON, C. Willet. The history of underclothes. Nova York: Dover Publications, 1951. 
  • RIBEIRO, Aileen. Dress in Eighteenth-Century Europe 1715-1789. Washington: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, 2002.
  • MARSH, Gail. 18th century embroidery techniques. Londres: Guild of Master Craftsman, 2006.
  • SILVA, Antônio de Morais. Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. Lisboa, 1789. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/browse?type=author&value=Silva%2C+Ant%C3%B4nio+de+Morais%2C+1755-1824. Acesso em 27 out. 2019.
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2 comentários em “Glossário: Jarreteira/Garrotêa/Liga de perna”

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