Glossário: Paniers / Hoops

Por Juliana Lopes, Designer de Moda

A silhueta dos vestidos do século 18 era alcançada usando vários tipos de armações com aros que podiam variar em tamanho, indo dos longos grand paniers aos pequenos pocket hoops ou petit paniers. Essas peças foram  comuns durante todo o reinado de Luís XV da França (1710-1774)

A ORIGEM

Não existe um consenso em relação à origem do panier, que pode ter vindo da Inglaterra em 1714, onde eram chamados de hoop petticoats, ou da Alemanha por volta da mesma época. Originalmente eram utilizados apenas por atrizes, para um efeito mais dramático no figurino. 

O panier chega aos trajes de Corte como suporte para o Robe Battante ou Robe Volante, um estilo de vestido amplo e solto no corpo que aparece na França por volta dos anos 1720:

Os primeiros paniers tinham um formato oval, com o topo levemente arredondado, podendo atingir até 3.6m de diâmetro. Essa é a silhueta que domina as décadas de 1720 e 1730. Desconhecemos paniers desse período que tenham sido preservados.

Maria Amália da Saxônia em retrato de 1738, pintado por Louis de Silvestre. Note como a saia se alarga em direção às laterais mas ainda tem um certo volume frontal.

A partir dos anos 1740 o panier inicia um processo de achatamento na frente e costas, o que dará origem à silhueta icônica do século 18, com o volume todo concentrado nas laterais. As décadas de 1750 e 1760 representam o auge das dimensões dessas armações, havendo inúmeros relatos da época sobre as dificuldades de locomoção das mulheres (WAUGH, 2001). Nesse período o panier já havia se tornado parte obrigatória dos Trajes de Corte de quase toda a Europa, a partir do modelo francês.

Entre as décadas de 1750 e 1760 o panier assume uma forma retangular com pouco ou nenhum volume na frente e nas costas. Os modelos ingleses tendiam a cair retos na lateral do corpo, sendo comparados a caixas. Os modelos de inspiração francesa tinham um leve formato evasê. A largura do panier estava diretamente ligada ao status da pessoa na Corte.

Traje de casamento da rainha Sofia Magdalena da Suécia, 1761. Livrustkammaren, Suécia.

Dos anos 1760 em diante, o panier largo (grand panier) vai perdendo espaço, permanecendo apenas nos trajes de Corte, onde era obrigatório. Porém, à medida em que o século avança, a armação vai diminuindo gradativamente e se tornando mais arredondada no topo, acabando por dar origem a uma versão mais compacta (petit panier) e eventualmente ser abandonada dos anos 1780.

A ANATOMIA DOS PANIERS

Os paniers tiveram muitas variações de formato e cada uma dela recebia um nome próprio, que variava de acordo com o local e período. Mas, mesmo em meio a essas variações, encontramos dois tipos de panier muito distintos ao longo do século 18: o grand panier e o petit panier.

O Grand Panier

O grand panier era pensado para dar suporte às saias dos Trajes de Corte e de vestidos como Robe a la Française. Era uma armação robusta que caía entre o meio da panturrilha e o tornozelo.

Quanto à construção, parece ter havido apenas duas técnicas: o grand panier em formato de saia e o grand panier em formato de gaiola.

O primeiro consistia numa saia de morim engomada  sustentada por aros (de junco, cana-da-índia ou barbatanas de baleia), inseridos em canaletas. Sua modelagem tinha uns poucos recortes que ajudavam a manter o formato desejado.

Panier do vestido de coroação da rainha Sofia Magdalena da Suécia, 1772 Esse é um exemplo do panier em sua dimensão mais exagerada, típica dos trajes de Corte: ele tem mais de 4m de largura total. Livrustkammeren, Suécia.

Exemplo de panier de inspiração francesa, 1750-1770. Este é um modelo de proporções moderadas, feito para ser usado com um Robe a la Française e considerado informal. Museu de Artes de Los Angeles (LACMA)
Diagrama de um panier proposto por Waugh (2001) a partir de um original dos anos 1740.

O segundo consistia num sistema de aros forrados sustentados por tiras de tecido, que lembrava as tramas de uma gaiola:

Os dois tipos de paniers, ambos de 1760, lado-a-lado. O da frente é infanto-juvenil.
Museu Nacional da Alemanha.

O Petit Panier

Referido modernamente como pocket hoop, esse modelo de panier é uma versão bem mais compacta que o grand panier, que se torna popular nos anos 1750 como uma alternativa informal de armações. Era usado pelas mulheres nobres fora das funções da Corte, mas também pelas mulheres burguesas.

O petit panier consiste em duas “bolsas” laterais estruturadas com aros em formato semicircular. Um material comumente utilizado  nessa peça era o algodão ou linho, mantendo a utilização de barbatanas de baleia/junco/cana-da-índia nas canaletas para estruturar a peça. Cada lado do pocket hoop era unido por uma faixa na cintura e os laços na parte frontal mantinham a peça no lugar.

Petit panier americano, c. 1760. Museu de Belas Artes de Boston.
Diagrama com proposta de modelagem de um par de petit paniers/pocket hoops a partir de um original da década de 1760. (WAUGH, 2001)

Variações

A preservação de outros modelos de paniers em coleções de museus sugere a existência de uma variedade muito maior do que as revistas de moda da época sugerem. Considerando que as peças eram feitas sob medida, podemos trabalhar com a possibilidade de que cada alfaiate (peças que usavam barbatanas eram feitas por alfaiates) adaptasse as técnicas às necessidades e ao biotipo da cliente.

Esse modelo francês (1775-1780) é uma variante do panier do tipo gaiola, porém muito mais curto. Os aros são de junco e as tiras, de linho:

Esse modelo britânico de 1750 também apresenta uma variação curta do panier inteiriço:

Museu Metropolitano de Nova York

Um dos mais curiosos é esse modelo alemão, que combina elementos do panier gaiola com o panier inteiriço:

Museu Nacional em Nuremberg (Alemanha)

 O PETIT PANIER NA OBRA DE CARLOS JULIÃO

Observando as aquarelas, identificamos algumas representações que sugerem a presença de petit paniers sob as roupas. Em uma delas podemos afirmar quase que com certeza a presença dessas estruturas, já que se trata de uma mulher trajando vestido do tipo Robe a la Française:

Prancha XXXVI

Em outras três aquarelas, a posição das figuras não permite determinar o tipo de vestido. Porém, em se tratando de cortejos de festividades afrobrasileiras onde havia a presença de uma Corte, é possível pressupor que as rainhas da festa usariam um traje que era identificado diretamente com a nobreza, como é o caso do Robe a la Française:

Prancha XXXVII
Prancha XXXVIII

Um terceiro caso que tratamos como uma possível presença de petit paniers é a figura feminina da aquarela 07:

Prancha VII

Essa combinação de saia e caraco aparece com frequência em revistas de moda e ilustrações da época como um traje informal. A partir do estudo da modelagem das peças, percebe-se que elas eram feitas para ser usadas com algum tipo de suporte – que poderia ser um petit panier ou um bumpad, que eram as “almofadinhas” amarradas à cintura para dar volume aos quadris.

Caraco e saiote ingleses, 1770. O tecido é de fabricação indiana e a confecção da peça foi feita na Inglaterra. Victoria & Albert Museum.

REFERÊNCIAS

  • BOUCHER, François. História da moda no Ocidente. Cosac Naify, 2010
  • CLEAVE, Kendra Van. Let’s start at the very begginning: paniers Disponível em: <http://demodecouture.com/lets-start-at-the-very-beginning-paniers/
  • COX, Abby; STOWELL, Lauren. The American Duchess Guide to 18th Century Dressmaking. Page Street Publishing 2017.
  • CUNNINGTON, Philis; WILLET, C. Willet. The history of underclothes. Dover, 2013
  • WAUGH, Norah. Corset and crinolines. Taylor and Francis, 2001

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2 comentários em “Glossário: Paniers / Hoops”

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