Glossário: Quimão/Banyan

Por Pauline Kisner, historiadora

O quimão (variantes em português colonial: queimão, timão) é uma peça que surge no guarda-roupas europeu ainda no início do século 17, sob influência dos contatos com a Ásia durante as Grandes Navegações. Trata-se de um casaco longo, geralmente usado aberto na frente, derivado do quimono japonês. Embora grande parte da bibliografia existente aponte os comerciantes holandeses como responsáveis pela introdução dessa peça no guarda-roupa europeu, estudos recentes sinalizam a forte possibilidade de que o quimão tenha se espalhado a partir da Península Ibérica.

Quimão de fabricação indiana em algodão estampado, c. 1750. LACMA.

UMA QUESTÃO DE NOMENCLATURA

No século 18, a palavra quimão já era de uso corrente na língua portuguesa. Ela aparece em inventários post-mortem, na literatura de viagem e já havia sido incorporada à língua, chegando a ganhar um verbete no Dicionário da Língua Portuguesa de 1789:

QUIMÃO, s.m. roupão talar com mangas, aberto por diante, e largo.

(SILVA, 1789)

Outros dicionários do período, incluindo versões anteriores dos volumes do Padre Bluteau, acrescentam a existência de variações como timão e queimão. Todas as variantes guardam uma proximidade bastante clara com a palavra japonesa kimono.

O português teria emprestado a outras línguas palavras para definir a mesma peça. O termo “baniano”, que no final do século 16 era uma referência genérica a comerciantes hindus, é a provável origem do inglês banyan e do francês bannian, duas palavras que no século 17 descreviam o quimão (MOLINA, 2010). A partir de 1715, porém, o banyan inglês sofre uma modificação, ganhando duas linhas de botões sobre o peito e uma modelagem mais ajustada, que o separa definitivamente do quimão.

DO QUIMONO AO QUIMÃO

As primeiras menções ao uso do quimão em Portugal datam do início do século 17, porém há registros da palavra em fontes do século 16, descrevendo como residentes nas Índias Orientais se adaptavam ao clima incorporando o uso do quimão em sua roupa do dia-a-dia. É o caso de D. Leonor da Fonseca, uma portuguesa que foi denunciada à Inquisição em 1593 sob a acusação de

(…) beijar mais tambem humas figuras douradas porcos &c. que estavam pintadas em hum quimão de Japão que trazia vestido.

(TORRES, 2019)

O quimão chega a Portugal num misto de fantasia e olhar do colonizador. Por ocasião dos festejos da canonização dos santos Inácio de Loyola e Francisco Xavier em 1622, foi promovido um grande desfile representativo dos domínios portugueses (e católicos!) em diversas partes do planeta. Cada província foi representada através de trajes que cristalizavam a imagem estereotipada do Oriente que já se construía na mentalidade europeia. No relato oficial dos festejos, os representantes de China e Japão são descritos

[vestindo] quimões de seda & ouro, trajo muito particular daquellas Regioẽs, na cabeça barretes a seu modo semeados de muita pedraria, leques nas maõs, catanas a tiracolo.

(FERREIRA, 2019)

A primeira referência conhecida a um quimão japonês sendo usado por um europeu é de um inventário português de 1631. Garcia de Melo e Torres foi um alto funcionário do governo colonial que atuou como capitão da Feitoria de Sofala (atual Moçambique) e como vedor da Fazenda da Índia. No espólio de Garcia constava um “quimão do Japão forrado de tafetá azul celeste que é de couro empessado”, além de um biombo, duas catanas e vários objetos decorativos de fabricação japonesa.

Garcia não parece ter sido uma exceção. Em sua passagem por Macau em 1634-35, o mercador britânico Peter Mundy foi recebido na casa do governador e notou como as filhas dele usavam quimões, a que o britânico chama de “abrigos japoneses”. Mundy também descreve detalhadamente como os quimões, trabalhos de madeira e laqueamento, leques e sedas eram transportados do Japão para a Índia em pequenos navios e da Índia eram então enviados para Portugal.

Rotas de comércio ibéricas no século 17

UMA ROTA DE EXPANSÃO A PARTIR DA PENÍNSULA IBÉRICA?

As bibliografias mais tradicionais (WOODYWARD, 2015; SWAIN, 1972) consideram que os comerciantes holandeses teriam sido os difusores do quimão na Europa e, a partir daí, as Metrópoles teriam expandido o uso da peça para as colônias americanas através do comércio colonial. Os primeiros exemplares de quimões chegam a Amsterdam em 1641, a partir do momento em que os portugueses são expulsos da Ilha de Dejima e os holandeses ganham permissão de comercializar por lá. Porém, o contato dos europeus com a indumentária tradicional japonesa já tinha pelo menos cinquenta anos e havia começado por Portugal.

Em 1584, a primeira missão diplomática japonesa chegou à Europa através de Portugal. A missão, conhecida como Embaixada Tensho, tinha como objetivo não só estabelecer relações diplomáticas e comerciais, mas de causar um impacto religioso nos membros. A comitiva era formada por jovens príncipes japoneses convertidos ao Catolicismo e a viagem fora promovida pelos Jesuítas, com o objetivo de maravilhar os emissários nipônicos diante das nações católicas e facilitar a conversão dos japoneses (SALGUEIRO,2015). O primeiro destino da missão foi a cidade de Vila Viçosa, Corte dos Duques de Bragança e o principal centro das artes e do luxo na Península Ibérica na época. De acordo com os relatos da visita, a Duquesa-Viúva, D. Catarina de Portugal, mandou que se tirassem moldes das roupas dos diplomatas japoneses e chegou a vestir seu filho caçula com traje tradicional dos samurais.

Conjunto de traje tradicional do século 19 (hitatare). Museu Metropolitano de Nova York.

Em seu estudo sobre a presença de quimões na América Espanhola, Andrea Torres identificou a presença de uma peça de origem japonesa no inventário dos bens do Capitão Andrés de Acosta, recuperados após o naufrágio de um navio que seguia das Filipinas para o México. O naufrágio aconteceu antes de 1622, o que colocaria a chegada dos quimões à América Espanhola como anterior à sua chegada na Holanda. Torres defende que a difusão do quimão teria seguido o caminho Sul da Ásia > Península Ibérica > restante da Europa ou até que os quimões tenham entrado na América Espanhola antes de dominarem o mercado europeu.

Há de se considerar, contudo, a contribuição holandesa para a difusão do quimão entre a elite europeia. Na década de 1650, as companhias de comércio holandesas importavam quimões de origem asiática e distribuíam através de sua extensa rede de rotas comerciais, algumas das quais chegavam à América colonial. É interessante também observar como essa peça foi apropriada de modos totalmente diferentes dependendo do país. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, o quimão era uma peça de uso doméstico, geralmente acompanhado de uma touca ou turbante e quase que exclusivamente masculino; seu uso estava ligado à imagem de intelectuais e comerciantes (WOODYARD, 2016) e são frequentes os retratos de homens nessa condição usando ricos quimões de seda:

Ward Nicholas Boylston em retrato de 1767, pintado por John Singleton Copley. Museu da Universidade de Harvard. O quimão é de seda adamascada, forrado em seda verde lisa.

Na França, a situação se repetia (WOODYWARD,2016). Na Holanda, porém, os quimões eram uma peça utilizada em ambientes públicos por nobres e comerciantes. Eles chegavam a fazer parte do traje oficial dos estudantes da Universidade de Leiden (TORRES, 2019). Essa relação do quimão como uma peça de luxo que se prestava ao uso em espaços públicos, como uma maneira de reafirmar a posição social do usuário, é semelhante ao que encontramos no Brasil do século 18.

DO QUE ERA FEITO UM QUIMÃO?

Os primeiros quimões que chegaram à nobreza e burguesia europeia do século 17 eram fabricados por tecelagens asiáticas, utilizando técnicas, cores e temas próprios de cada região. Eles eram feitos em dois tipos de seda: uma variante bordada ou pintada à mão, usada como tecido externo, e uma variante lisa usada como forro.

À medida em que a demanda foi crescendo, as tecelagens asiáticas começaram a produzir tecidos à disposition: cortes já previamente bordados ou pintados para um formato específico de roupa:

Dois paineis bordados, sem uso e sem danos, de fabricação chinesa, provavelmente para o mercado holandês. C. 1760.
FONTE: VOLLMER, John E. Chinese Export Silks for the West. Catálogo digital da exposição. Acesso em 01 dez 2019. Disponível aqui.

Ao longo do século 17 e 18, para proteger sua balança comercial, países como França e Portugal tentaram diminuir a entrada de sedas importadas que eram vendidas pelos holandeses. As medidas protecionistas incluíam de um lado as leis suntuárias, que regulavam o luxo na indumentária, e de outro o estímulo à instalação de tecelagens locais de seda. Em Portugal, a Coroa incentivou a adaptação da amoreira e o desenvolvimento de fábricas de seda, inclusive trazendo técnicos franceses. Essas tecelagens europeias se apropriaram das técnicas tradicionais da China e Índia e adaptaram ao maquinário ocidental, passando a produzir sedas europeias “à indienne”, ou seja, uma mistura de influências do sul e sudeste asiático adaptadas ao gosto europeu pelo exótico.

Quimão de seda chinesa produzida para o mercado europeu, c. 1720. Victoria & Albert Museum.

A partir da segunda metade do século 18, o algodão começa a ganhar espaço no mercado internacional como uma fibra nobre. Nesse momento, os algodões de origem indiana, ricamente estampados, são valorizados e começam a aparecer nos quimões. Os holandeses, em especial, se notabilizaram pelos quimões de algodão trazidos da Costa de Coromandel, no sul da Índia, que eram avidamente consumidos pela elite da Inglaterra, França e Portugal.

Quimão em algodão estampado, de origem indiana e fabricação inglesa ou holandesa, c. 1750-1775. Museu Victoria & Albert

QUIMÃO ou BANYAN?

No século 17 dos dois termos são sinônimos, assim como “Robe de Chambre” e “Roupa de Chambre”. Porém, a partir do século 18, o banyan começa a ganhar características próprias na Inglaterra: as costas passam a ser ajustadas através de paineis costurados entre si, o peito ganha uma abotoadora dupla e a peça se torna mais próxima da modelagem de um casaco, não raramente com um colete do mesmo padrão. Esse conjunto alemão (1760-1780) é um exemplo da mudança do estilo.

As fontes que falam sobre o uso do quimão no Império Português do século 18 não diferenciam os dois estilos.

CONSTRUÇÃO DA PEÇA

Embora existam moldes comerciais de quimões e banyans, a construção detalhada da peça não foi registrada nos livros de alfaiataria da época. Coube ao pesquisador e ilustrador Maurice Leloir em 1933-1940, a partir do estudo de peças sobreviventes da época, elaborar uma proposta de modelagem que é bastante semelhante aos painéis bordados que mostramos anteriormente:

O Museu de Artes de Los Angeles (LACMA) disponibiliza gratuitamente um molde de Banyan masculino (modelo ajustado no peito e com abotoadura dupla, tipicamente masculino e europeu). O molde foi produzido a partir de uma peça do acervo da instituição, com tecido de fabricação chinesa da primeira metade do século e possível fabricação holandesa entre os anos de 1750 e 1760:

Clique aqui para visualizar o molde (em inglês).

O QUIMÃO NA OBRA DE CARLOS JULIÃO

O quimão nunca chegou a ser uma peça popular no sentido de amplitude de uso entre as diversas camadas da população. Ele era uma peça de luxo mesmo quando feita com tecidos europeus e representava um mecanismo da elite colonial de se reafirmar como classe dominante através da indumentária. Há poucos quimões registrados em inventários post-mortem da região de Minas Gerais e nenhum deles associado a mulheres, o que torna ainda mais curiosa a representação dessa peça na obra de Julião.

No total encontram-se três possíveis quimões dentre as aquarelas de Julião. Todos estão associados a figuras femininas, são lisos, com debrum contrastante e aparentemente sem forro:

É interessante observar que em duas delas o quimão é usado junto a elementos que, em contraponto com a terceira figura, sugerem seu uso como peça não exclusiva do ambiente doméstico: saias com anáguas, cabelos altos e cobertos, presença de meias e sapatos com as fivelas fechadas. A representação do caimento das peças também sugere se tratar da modelagem proposta por Leloir. Por se tratarem de peças lisas, acreditamos serem feitas em seda ou lã (bem menos comum, mas registrada no período), já que o mercado de algodão da época demandava tecidos estampados e há poucos registros de têxteis de algodão lisos.

REFERÊNCIAS

  • FERREIRA, Mª João Pacheco. Os têxteis chineses em Portugal nas opções decorativas sacras de aparato (séculos XVI-XVIII). Tese de Doutorado – Universidade do Porto, 2001. Acesso em 29 nov 2019. Disponível aqui.
  • LELOIR, Maurice. Dictionnaire du costume et de ses accessoires, des armes et des étoffes : des origines à nos jours. Paris : Gründ, 1950
  • MOLINA, Daniele de Souza. Empréstimos linguísticos no campo lexical: a contribuição do português para o léxico da língua inglesa. Acesso em 30 nov 2019. Disponível aqui.
  • SALGUEIRO, Tiago. The Importance of the 1584 visit of the Japanese Tensho Embassy to Vila Viçosa (Portugal), E-conservation Journal 4, 2015. Acesso em 29 nov 2019. Disponível aqui.
  • SILVA, Antônio de Morais. Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. Lisboa, 1789. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/browse?type=author&value=Silva%2C+Ant%C3%B4nio+de+Morais%2C+1755-1824.
  • TORRES, Andreia Martins. El quimono en la Nueva España: una manifestación local de una moda global en los siglos XVII-XVIII. Conservar Património, Lisboa, v. 31, p. 79-95, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.14568/cp2018008. Acesso em: 18 out. 2019.
  • VOLLMER, John E. Chinese Export Silks for the West. Catálogo digital da exposição. Acesso em 01 dez 2019. Disponível aqui.
  • WOODYARD ‘Wrapping gown’, in: DOERING, M. & BLANCO (Orgs.), J. Clothing and Fashion: American Fashion from Head to Toe. vol. 1, ABC-CLIO, California (2016). pp 320-321.

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