Glossário: Saias & Anáguas

Por Juliana Lopes, Designer de Moda

As saias femininas como conhecemos (uma peça separada do corpete do vestido) começaram a surgir a partir da Renascença. E as do século XVIII têm algumas características que as tornam bem distintas de outras épocas.  

É possível observar uma certa versatilidade no uso das saias durante esse período, já que elas poderiam aparecer como anáguas / saias interiores – para acrescentar uma camada extra de volume, modéstia ou calor, entrevistas por baixo de um vestido aberto ou fazer parte de um conjunto com jaqueta. Suas características principais são as pregas, as aberturas laterais para alcançar os bolsos e o cós ajustável, vestido como um avental. Seu comprimento geralmente era longo, até o chão. Para mulheres com uma vida mais ativa ele ficava  na altura dos tornozelos.

Exemplo dos usos das saias: como peça contrastante num Robe a l’Anglaise, na mesma cor e material com um Robe a la Française e num modelo contrastante e quiltado usado com um caraco.

Essas saias eram geralmente constituídas de um largo retângulo pregueado, e para os modelos usados juntos de paniers as pregas se concentravam nas laterais da peça, deixando a parte da frente lisa. Observa-se que essas pregas são espelhadas, dobradas do centro para as laterais.

MATERIAIS

Os tecidos comumente usados nas saias são o linho, algodão e a seda. A lã eram empregada principalmente em trajes de cavalgada e, aqui no Brasil, é uma fibra bastante presente em inventários.

Em relação à aparência podiam ser simples e lisas ou ricamente decoradas, para serem usadas com vestidos abertos. Mais comumente feitas no mesmo tecido que o vestido, mas também podem ser encontrados exemplos de saias contrastantes.

Robe a la Française, c. 1780. Rijksmuseum (Holanda)
Robe a la Française, c. 1755. Museu Metropolitano de NY.
Retrato da Sra. Cadoux, anônimo. C. 1770. Galeria Tate.

Uma outra combinação comum era uma saia em tecido neutro e sem estampa junto de um vestido estampado.

Robe a l’Anglaise, c. 1780. Museu Estadual de Berlim.

Haviam ainda as saias quiltadas que eram usadas como anáguas para esquentar ou acrescentar volume. Possuíam forro e camada externa e entre as duas partes eram recheadas com lã, penas ou outros materiais. Para unir as duas camadas havia bordados em motivos sofisticados. 

Caraco e saia quiltada, 1770-1790. Museu de Antuérpia.

CONSTRUÇÃO

O corte básico da anágua e da saia do século 18 é formado por retângulos de tecido, parcialmente unidos pela lateral e pregueados na cintura. Esses painéis retangulares eram cortados utilizando a largura total dos tecidos produzidos na época, que variava entre 60 e 80cm. Somando-se os quatro painéis (2 frontais e 2 traseiros), a média de circunferência das saias ficava em torno de 3m. Com tecidos modernos, cuja largura oscila entre 140cm e 150cm, dois painéis são suficientes para a construção.

Quando usadas com armações, as saias tinham um formato diferente na parte superior, com as laterais mais altas para acomodar melhor o volume da estrutura de baixo. Nesgas triangulares também podiam ser incorporadas à construção, na lateral.

Exemplo de acomodação das pregas em uma saia usada com panier.

A construção de uma saia do século 18 constituía, a grosso modo, nas seguintes etapas: 1) aplicar as decorações necessárias no painel frontal; 2) unir as laterais do tecido; 3) formar as pregas e 4)fazer o cós. Esse processo era feito inteiramente à mão.

Ilustração de uma saia típica do século 18, com a abertura para os bolsos e as fitas de ajuste na cintura

A parte superior entre os painéis de frente e costas eram deixados abertos, para formar o espaço por onde a mulher acessa os bolsos. Uma fita era costurada dobrada na parte da cintura, formando o cós. Essas fitas permitiam não só que a saia fosse vestida de forma mais fácil mas também que a peça não precisasse de tantos ajustes caso o corpo mudasse de forma. Na barra, uma tira de linho poderia ser costurada como revel, para dar acabamento e evitar o desgaste da peça. 

Prancha XXXV

Em relação à coletânea de figurinhas de Carlos Julião, que retratou a moda brasileira no século 18, é interessante observar a abundância de cores e estampas utilizadas pelas mulheres. Atualmente nossas pesquisadoras estão estudando formas de reproduzir essas estampas.

REFERÊNCIAS

  • ARNOLD, Janet. Patterns of Fashion 1 (cut and construction of women’s clothing, 1660-1860) – Wace 1964, Macmillan 1972.
  • COX, Abby; STOWELL, Lauren. The American Duchess Guide to 18th Century Dressmaking. Page Street Publishing 2017.
  • VIANA, Fausto; ITALIANO, Isabel C. Para vestir a cena contemporânea: moldes e moda no Brasil do século XVIII. Universidade de São Paulo. Escola de Comunicações e Artes.
  • WAUGH, Nora. The Cut of Women’s Clothes (1600-1930)  
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