Pensando têxteis como fontes primárias

Por Pauline Kisner, historiadora

Recriar tecidos e suas estampas é um dos pontos mais sensíveis da recriação histórica. Ao lado das peças de suporte, que dão formato à silhueta de cada época, os têxteis são um aspecto fundamental para que se obtenha um resultado minimamente plausível. Mesmo em caso de figurinos cênicos, que possuem um grau de liberdade muito maior, o conhecimento das referências têxteis de cada período é um aliado poderoso para a criação de peças que transmitam adequadamente a estética da época sendo retratada.

Ao pesquisar a obra de Julião, identificamos rapidamente um considerável esforço técnico dele em registrar certa variedade de estampas. Seriam representações literais dos têxteis que ele viu nas ruas do Brasil Colônia ou uma criação a partir de um apanhado de referências da Colônia e daquelas que Julião conhecia da Europa? Para tentar responder essas perguntas, precisamos nos lançar na busca de outras fontes que tratem dos têxteis em circulação no Brasil no século 18. E essa busca nos colocou diante de um outro problema: não sabemos de trajes desse período preservados no Brasil. Temos em mãos ótimos estudos que abordam os têxteis presentes em inventários (GUIDO, 2015; MÓL, 2002; ZIMMERMAN, 2014) e o vocabulário empregado na descrição desses itens (OLIVEIRA, 2010), mas carecemos de referências visuais para além dos registros de viajantes e cronistas. E embora as figurinhas de Julião formem a principal referência dessa primeira etapa do Projeto Traje Brasilis, elas são representações sujeitas às escolhas subjetivas do autor e nos colocam diante de uma série de problemas relacionados às cores, proporções e texturas.

Prancha XX

Na tentativa de preencher essa lacuna, optamos por comparar as representações de estampas da obra de Julião com referências de têxteis europeus ou indianos destinados ao mercado europeu, produzidos entre os anos de 1760 e 1790. Um recorte tão amplo se justifica por dois pontos:

  • pela dificuldade de precisar em que anos da década de 1780 Carlos Julião esteve produzindo no Brasil;
  • tecidos eram materiais caros e o reaproveitamento era uma prática comum, de modo que se encontram trajes com feitura dos anos 1780, mas utilizando tecidos datados de duas ou três décadas anteriores. Se isso é registrado na Europa, podemos presumir que também fosse prática existente no Brasil Colônia, onde os tecidos eram materiais ainda mais caros.

Estabelecido nosso recorte de tempo, iniciamos o processo de identificar os tipos de materiais têxteis que usaríamos na pesquisa e os repositórios digitais onde encontraríamos essas amostras. Chegamos a dois grupos de têxteis: trajes originais e amostras de tecidos. Vamos falar inicialmente sobre os principais repositórios usados na pesquisa e depois trataremos dos tipos de têxteis selecionados.

SELECIONANDO REPOSITÓRIOS DIGITAIS

Devido à grande quantidade de repositórios disponíveis, precisamos restringir nossa pesquisa a museus que possuem coleções significativas de locais com os quais o Brasil Colonial teria contatos comerciais mais próximos no século 18 e que poderiam inspirar diretamente a crescente produção têxtil local (DELSON, 2016). Selecionamos peças de Portugal (disponíveis em menor número), Inglaterra (pelos acordos comerciais com Portugal) e França (pela influência que tinha na moda europeia do período). Também selecionamos peças produzidas em manufaturas indianas visando o mercado europeu e que porventura tenham chegado à América do Norte. No momento estamos em busca de referências de têxteis africanos do período e sua circulação na Colônia.

A Direção Geral do Patrimônio Cultural (DGPC) de Portugal possui um sistema que centralizou o acesso às coleções fotográficas e museológicas dos Museus e Palácios Nacionais. Já estão digitalizadas e disponíveis no sistema coleções de trajes e objetos de uso pessoal do Museu Nacional do Traje, do Museu de Arte Popular, Palácio da Ajuda, Museu Nacional Soares dos Reis, Museu Nacional de Etnologia, Museu Nacional de Arqueologia, entre outros. O sistema permite a busca por tipo de objeto, período histórico, coleção específica e até autoria.

Stays (1760-1780). Museu Nacional do Traje (Lisboa)

Clique aqui para acessar o sistema português MatrizPix

Comparativamente, Inglaterra e Estados Unidos são os países que possuem o maior número de museus que oferecem consulta a coleções digitalizadas de acervos têxteis. Na Inglaterra, destaca-se o imenso acervo do Museu Victoria & Albert, que conta com diversos trajes completos do século 18, além de livros de amostras e têxteis avulsos. Site e busca disponíveis apenas em inglês.

Conjunto de caraco e saia em chita, produzido na Costa de Coromandel para o mercado europeu. 1770-1780. Museu Victoria & Albert.

Nos Estados Unidos destacam-se os acervos do Museu Metropolitano de Nova York; do Museu Cooper-Hewitt; do Instituto de Tecnologia de Moda; do Museu de Artes de Los Angeles; do Museu de Belas Artes de Boston; do Museu Nacional de História Americana e do Museu Winterthur. Essa abundância de repositórios estadunidenses se justifica pelas políticas de aquisição dos museus daquele país e pelo grande investimento privado nas instituições, que permitiu ao longo dos anos a aquisição de peças de diversas partes do mundo.

Fragmento de algodão de fabricação indiana, combinando estamparia por rolo e pintura à mão. 1775-1800. Museu Winterthur.

Recentemente, dois grandes projetos têm procurado centralizar esses recursos para otimizar a pesquisa: a Europeana Fashion, que reúne acervos digitalizados de instituições da União Europeia e permite a busca em quase todos os idiomas do continente, e o projeto We Wear Culture, da Google, que tem abrangência mundial.

OS TRAJES ORIGINAIS

Existe uma quantidade surpreendentemente grande de trajes originais do século 18 em coleções de museus, apesar do desafio que a conservação de têxteis tão antigos representa. Uma parte significativa das coleções têxteis dos principais museus europeus e norte-americanos vem sendo fotografada e disponibilizada para pesquisa digital, com informações fundamentais como data, procedência, fibras empregadas, medidas e até mesmo técnicas específicas de bordado e confecção utilizadas. Alguns museus disponibilizam fotografias em detalhes de estampas e bordados, além de apontamentos específicos sobre técnicas de tecelagem e tingimento referentes às peças.

O trabalho com esse tipo de recurso nos permitiu teorizar quais peças características da indumentária do século 18 são representadas na obra de Julião e estudar suas estruturas e técnicas de construção a partir de detalhes que não são visíveis nas aquarelas, mas podem ser claramente observados nos trajes originais. A partir das peças originais também conseguimos observar de maneira mais ampla as questões de silhueta e proporções de cada traje, estampas e acessórios e comparar as peças reais com as escolhas de Julião ao representá-las nas aquarelas.

A comparação com trajes originais tem nos permitido observar detalhes de construção que não são visíveis nas aquarelas

Para chegar a identificar quais trajes estão sendo representados nas aquarelas, passamos primeiro por um estudo geral da indumentária do período em obras já clássicas da área (ARNOLD, 1972; KÖHLER, 1996; RIBEIRO, 2002; WAUGH, 1990) . Somente depois de conhecer os tipos de trajes usados na Europa do século 18 e suas dimensões sociais, econômicas e até políticas é que começamos efetivamente a procurar referências de trajes originais. Esse é um processo muito importante quando lidamos com cultura material, pois é preciso compreender em que contexto cada objeto específico foi criado e utilizado e nunca tomar o objeto como um dado em si mesmo (FUNARI, 2010).

OS LIVROS DE AMOSTRAS

Os livros de amostras não eram publicações propriamente ditas. Embora alguns deles tenham sido usados como catálogos de representantes comerciais, eles possivelmente eram muito mais um instrumento de catalogação e organização das próprias tecelagens, servindo para registro de estampas e técnicas de tingimento que poderiam ser reproduzidas futuramente. Há também casos específicos de livros de amostras que serviam como inventário e controle de despesas de confecção; é o caso dos famosos “livros de guarda-roupa” da rainha Maria Antonieta, que continham um inventário detalhado de amostras de tecidos usados em seus trajes e eram utilizados como uma forma de controle dos trajes encomendados e entregues pela costureira da rainha. Um outro caso digno de nota é o livro de Barbara Johnson, que passou sete décadas colecionando amostras de diferentes tipos de tecidos e registrou toda a mudança estética que atingiu a estamparia na virada do século 18 para o 19.

Capa e página de um dos volumes de 1782 do livro de amostras de Maria Antonieta. Gallica.

Independentemente do uso, a estrutura dos livros de amostras é constante: um volume encadernado com páginas lisas, onde são anexadas amostras de tecidos, que podem ser identificas por código (indicando fabricante e um número de catálogo, formato mais utilizado pelos livros comerciais) ou por uma pequena descrição da fibra e indicação de uso (formato mais comum em livros de registro de despesas, geralmente apontando o tipo de traje em que a amostra seria empregada). A dimensão dos livros e das amostras não possui um padrão único, sendo encontrados diferentes formatos nos acervos de museus da Europa e América do Norte. É importante mencionar que fabricantes de passamanarias também produziam tais catálogos com finalidades comerciais e que essa prática dos livros de amostras ainda existe na indústria têxtil.

As amostras de tecido permitem um estudo detalhado das questões técnicas envolvidas na fabricação de têxteis (tipo de fibra, tipo de trama, número e direção de fios, químicos usados na tintura e fixação) e nos oferecem a possibilidade de observar as mudanças de sensibilidades estéticas nas cores e motivos utilizados em cada época. Especificamente no campo da recriação histórica, esse tipo de fonte é um recurso indispensável para projetos que tenham a possibilidade de reproduzir tecidos históricos (DAVIDSON, 2015) recriando as técnicas da época. No caso de projetos que tomam representações artísticas como ponto de partida, eles também representam um recurso de pesquisa precioso, na medida em que oferecem ao pesquisador uma referência real contra a qual comparar a representação do artista, permitindo observar os processos criativos pelos quais o artista passou para representar uma textura ou estampa específica.

Proposta de reconstrução de uma pelisse do início do século 19. Essa reconstrução foi feita a partir de uma peça original, possivelmente usada por Jane Austen, e inteiramente feita com técnicas históricas. Para recriar o tecido, a equipe de pesquisa recorreu a um intenso cruzamento de fontes que incluiu desde a peça original até livros de amostras e recibos de compras da família Austen, e contou com o trabalho de uma tecelagem especializada na reprodução de tecidos históricos. (DAVIDSON, 2015)
Proposta de reconstrução de uma pelisse do início do século 19. Essa reconstrução foi feita a partir de uma peça original, possivelmente usada por Jane Austen, e inteiramente feita com técnicas históricas. Para recriar o tecido, a equipe de pesquisa recorreu a um intenso cruzamento de fontes que incluiu desde a peça original até livros de amostras e recibos de compras da família Austen, e contou com o trabalho de uma tecelagem especializada na reprodução de tecidos históricos. (DAVIDSON, 2015)

COMPARANDO INFORMAÇÕES

Para otimizar nossa pesquisa, mapeamos as amostras do século 18 que estão digitalizados e disponíveis para acesso livre. Nesse processo, constatamos a predominância de amostras provenientes do norte da Europa (Inglaterra, Escócia, Suécia e Alemanha), Europa Central (especialmente França) e da América do Norte (principalmente Estados Unidos). Embora esse tipo de documento não ofereça qualquer informação acerca da efetiva circulação das estampas dentro do território do Império Português, ele se torna uma referência indispensável na hora de interpretar as estampas da obra de Julião. Para fazer esta aproximação, estamos considerando quatro questões fundamentais na comparação:

  • cores utilizadas
  • elementos da estampa (flores, listras, arabescos) e sua direção (horizontal, vertical, diagonal)
  • proporção dos elementos
  • técnica de estamparia empregada (pintura à mão, estamparia por rolo, estamparia por carimbos, fio tinto)
Aproximação inicial entre a estampa da saia da prancha XVIII e uma estampa inglesa em chita (1760-1770), do acervo do Museu Victoria & Albert, feita pela pesquisadora Laleska Vieira.

Essas aproximações e comparações requerem que seja feito um estudo mais aprofundado sobre a circulação de mercadorias têxteis europeias, indianas e africanas dentro do Império Português e mais especificamente na região do Rio de Janeiro e das Minas Gerais, algo que esperamos poder observar com mais clareza à medida em que a pesquisa for avançando.

REFERÊNCIAS

  • ARNOLD, Janet. Patterns of Fashion 1 (cut and construction of women’s clothing, 1660-1860) –Wace 1964, Macmillan 1972.
  • COSTA, Manuela Pinto da. Tecidos e têxteis portugueses do século XVII ao século XVIII. In: Actas do IV Congresso Histórico de Guimarães, Guimarães, 2009. pp. 153-181.
  • DAVIDSON, Hilary. Reconstructing Jane Austen’s Silk Pelisse, 1812–1814, Costume, 49:2, 198-223.
  • DELSON, Roberta Marx. Brazil: the origin of the textile industry. In: HIEMSTRA-KUPERUS, Els; VOSS, Lex Heerma. The Ashgate Companion to the History of Textile Workers, 1650–2000. Londres: Routledge, 2016.
  • FUNARI, Pedro Paulo. Os historiadores e a cultura material. In: PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes Históricas. 2.e.d., 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2010.
  • GUIDO, Ligia Souza. Sob capas e mantos: roupa e cultura material na Vila de Itu, 1765-1808. 2015. 250f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciência Humanas, Universidade Federal de Campinas, 2015.
  • KÖHLER, Carl. História do Vestuário. Livraria Martins Fontes Editora, São Paulo, 1996.
  • MÓL, Claudia Cristina. Sobre modas e modos: o vestuário na sociedade colonial. In: Mulheres forras: cotidiano e cultura material, 1757 – 1800. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
  • RIBEIRO, Aileen. Dress in Eighteenth-Century Europe 1715-1789. Washington: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, 2002
  • WAUGH, Nora. The Cut of Men’s Clothes (1600-1930) [https://amzn.to/2VWfk3j]
  • WAUGH, Nora. The Cut of Women’s Clothes (1600-1930) [https://amzn.to/32tLFko]
  • ZIMMERMAN, Rachel. Global luxuries at home: the material possessions of an elite family in eighteenth-century Minas Gerais, Brazil. 431p. Tese (Pós-Doutorado em História da Arte). Universidade do Delaware, 2014.
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