Prancha XX

A prancha XX traz três figuras femininas brancas, executadas com técnica de aquarela no tamanho 38cm x 27,5cm.  Uma análise preliminar das figuras nos leva a concluir que se tratam, possivelmente, de representações de trajes de mulheres de classe média com os quais Julião tenha tido contato em sua passagem pelo Brasil.


FIG. 01 – Stephany Krause

FIG. 02 – Vivian Cristina

FIG. 03 – Pauline Kisner

A figura nº 3 dessa composição se destaca pela presença de um banyan, um casaco aparentado do quimono e de forte influência orientalista; este casaco é representado em diferentes versões em outras aquarelas do catálogo, o que nos leva a crer que se tratava de peça razoavelmente presente no cotidiano da colônia. Investigações recentes encontraram vestígios dessa peça em inventários post-mortem da região de Minas Gerais. Embora na Europa o uso do banyan pareça ter se restringido aos espaços domésticos, esse talvez não seja o caso do Brasil Colônia, já que a figura nº 3 dessa aquarela não aparenta estar usando um traje doméstico e as evidências disso são encontradas na própria obra de Julião, com outras figuras nos fornecendo pistas sobre a configuração de um traje doméstico: cabelos soltos, sem meias, saia sem volumes, sapatos com as fivelas abertas (cf. Prancha XXIV, fig. 01).

Sob o banyan, a figura traz uma combinação de blusa branca e saia estampada, ambas possivelmente em algodão. Pelo formato da saia, é possível supor a existência de peças de suporte, como um pequeno bumpad e uma ou duas anáguas engomadas. Quanto à estampa a saia apresenta um padrão floral intercalado com listras onduladas, apresentando na barra um detalhe decorativo incomum: um barrado do próprio tecido, desalinhado em relação à estampa do corpo da saia. Talvez por uma ilusão de óptica criada pelo volume da saia, a cintura marcada insinua a presença de stays. A blusa é solta e lisa, com babados no decote; pela posição do tecido e dos babados podemos supor que o decote seja regulado através de um sistema de cordões. O banyan europeu era tradicionalmente confeccionado em seda lisa ou estampada, podendo ser forrado em seda ou algodão de acordo com os recursos do usuário. A peça representada é vermelha debruada em azul e forrada em vermelho. Pelo caimento, acredito que seja uma peça de seda e confeccionada numa única camada, já que as peças originais existentes em museus costumam ter forro levemente contrastante com o exterior.  

O maior desafio da recriação dessa figura consiste na estamparia da saia, já que ela foi representada com bastante espaçamento entre os motivos, algo que não é comum em outros têxteis semelhantes do período, produzidos para o mercado europeu. É possível que se trate de licença criativa do artista ou de têxtil de décadas anteriores, até mesmo reaproveitado de um traje mais antigo, como era comum no período. Optei por tentar reproduzir a estampa num meio termo entre a aquarela e referências europeias de têxteis semelhantes, utilizando técnica de estamparia por carimbo (xilogravura ou linoleogravura) com tintas de tecido à base d’água ou pintura à mão, conforme o resultado dos testes.

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