Recriação histórica aplicada à História da Moda

Por Pauline Kisner, Historiadora

A História da Moda é um tema que divide opiniões. Há quem odeie, baseado na ideia de que é algo frívolo e consumista, e há quem ame exatamente pelos mesmos motivos. E ali no meio há quem entende que o ato de vestir o corpo envolve questões de gosto pessoal, mas que até isso é resultado das relações do mundo em que vivemos. A roupa que protege ou nos enfeita é uma trama complexa de contextos políticos, sociais e econômicos – e isso não é exatamente recente. Tem sido assim desde que a Moda (assim mesmo, com inicial maiúscula) enquanto fenômeno social surgiu, em algum lugar dos anos 1300.

Falar de Moda é falar de luxo e consumo, mas também falar da produção das roupas, da extração de matérias-primas, das relações de trabalho e até das leis que tentavam regular a importação e exportação de tecidos. Mas esses temas não são as primeiras coisas que vêm à nossa cabeça quando vemos um quadro ou uma foto de um belo traje histórico. As primeiras coisas que nos tocam são a diferença em relação ao que vestimos hoje e a beleza ou estranheza do traje. Depois começamos a conjecturar em torno do traje: como teria sido usar algo assim? Como se vestir ou fazer coisas simples do dia-a-dia com roupas tão volumosas e pouco práticas? Quanto tempo um traje desses levava para ser feito? Como lavar, passar, guardar? Será que as pessoas realmente se vestiam assim ou eram só roupas para ocasiões especiais? Cada um desses questionamentos é válido e só eles dariam algumas páginas de texto!

A verdade é que poucas roupas originais chegaram até os dias de hoje e, dentre elas, uma porção muito pequena representa aquilo que as pessoas comuns vestiam. Grande parte das peças que compõem ao acervo dos museus diz respeito à elite e, no geral, são peças frágeis que precisam de muito cuidado para ser armazenadas e conservadas. Elas não podem ser manipuladas nem expostas o tempo todo e, quanto mais antigas, mais frágeis. Além da fragilidade, temos um outro problema aqui: às vezes só uma parte do traje foi preservada, ou o traje já chega danificado ao museu, sendo quase impossível restaurá-lo. Aqui entra a prática da recriação histórica aplicada à História da Moda.

A recriação de trajes históricos vem se desenvolvendo desde os anos 1960, quando a historiadora Janet Arnold começou a estudar trajes de museus ingleses em detalhes e publicar livros com os moldes e desenhos detalhados de estampas, costuras e técnicas de montagem. Seu trabalho foi reunido na coleção Patterns of Fashion, com cinco volumes abordando a história da construção de trajes ingleses do século 16 aos anos 1940. De lá para cá, vários museus e pesquisadores universitários e independentes vêm se dedicando a entender os trajes históricos “pelo lado de dentro” e, nesse processo, descobrindo toda uma gama de questões técnicas e sociais envolvidas em peças tão simples quanto uma touca de algodão do século 18.

Uma página de amostra do trabalho de Janet Arnold na coleção “Patterns of Fashion”.

No momento, duas linhas de trabalho com recriação de trajes históricos são desenvolvidas na Europa e Estados Unidos:

A primeira segue a abordagem da Janet Arnold, que é a produção de réplicas ou de moldes a partir de peças preservadas. Replicar um traje histórico existente deixa pouco ou nenhum espaço para suposições. É preciso usar o mesmo tipo de tecido (com o mesmo peso, toque e padronagem), o mesmo tipo de linha, a posição exata das costuras; respeitar a modelagem original, encaixar a estampa do mesmo jeito e reproduzir até o tamanho dos pontos da peça original. Não há muitas lacunas para preencher quando você tem uma referência exata da época, inteirinha à sua disposição para ser estudada. Esse é um tipo de recriação muito cara e geralmente é usada por museus que precisam produzir réplicas para estudo ou para empréstimo, especialmente quando as peças originais já estão bastante danificadas.

No programa “A Stitch in Time” da BBC, uma equipe de especialistas em costura histórica recriou o surcotte de Eduardo de Woodstock, utilizando os remanescentes do original para dar vida a uma réplica perfeita.

Uma segunda forma de recriação histórica é trabalhar com trajes que já não existem mais ou que nunca chegaram a existir de fato: estamos falando de descrições em manuais de costura, de ilustrações e moldes em revistas de moda, de representações na pintura ou fotografia e até de peças que nós só conhecemos pelas descrições em cartas, diários e inventários. É aqui que surgem uma série de lacunas, de perguntas não respondidas e de hipóteses, que nós vamos tentando resolver ao longo da pesquisa. Nessa abordagem, a recriação se torna uma interpretação possível do traje que se assemelha a um quebra-cabeças em que a gente consegue mais ou menos deduzir o desenho das peças que estão faltando. Isso é o que se chama de recriação experimental.

Recriação de um traje do século 18 a partir de um quadro, feito pela equipe da American Duchess. Um ótimo exemplo da segunda abordagem

Recriação histórica é quase um trabalho de detetive, o que significa que antes de colocar a mão na massa e começar a montar o seu traje, você vai precisar de consideráveis horas de pesquisa. E isso acaba sendo uma coisa meio pessoal: cada pesquisador vai desenvolvendo suas próprias estratégias de pesquisa ao longo do tempo, à medida em que conhece melhor suas fontes. Mas isso não significa trabalhar às cegas. Mesmo com suas particularidades, os pesquisadores de recriação histórica compartilham alguns procedimentos fundamentais de pesquisa e método.

No artigo em que conta sobre o seu processo de recriar armações de saia do século 17, a historiadora Sarah Bendall propõe um método em três etapas:

1) CRIAÇÃO DO MOLDE A PARTIR DE REFERÊNCIAS DA ÉPOCA

Depois de decidir a peça que você quer recriar, é hora de encontrar referências que ajudem a entender como ela era cortada, construída e usada. Nessas horas, museus e arquivos digitais são seus melhores amigos. É neles que você vai encontrar fotografias em detalhes de peças semelhantes do mesmo período, registro de peças reais sendo usadas ou representações dela na arte.

Os registros da arte e as peças originais são especialmente importantes para que você consiga visualizar os materiais usados, as posições de drapeados e decorações. Se você der a sorte de encontrar imagens de alta resolução, consegue ver até os detalhes de posição de costuras e tipos de botões!

É interessante também encontrar outras pessoas que tenham produzido recriações de peças parecidas. Embora cada recriação histórica seja única, porque se trata de uma interpretação de informações históricas, a experiência de outros pesquisadores é muito construtiva para nos ajudar a encontrar respostas, principalmente quando a cabeça já está cansada e não consegue enxergar onde está o erro.

Se você está trabalhando com um traje completo, é importante manter as referências de cada peça separadas e um registro organizado do seu processo de produção.  

Recriação baseada numa das figuras do Tacuinum Sanitatis, um manual de saúde e bem-estar de origem árabe que foi traduzido e circulou na Europa no século 14.

2) SELEÇÃO DE MATERIAIS

Aqui, as descrições textuais são fundamentais. Livros especializados, descrições fornecidas pelos museus e documentos da época (como inventários e diários) nos fornecem dados importantes sobre os materiais usados em cada peça.

Existe um debate acalorado dentro da recriação histórica quando o assunto é o limite dos materiais. Alguns materiais não existem mais ou não podem ser usados por questões éticas (barbatanas de baleia) e até legais (tecidos de cânhamo, por exemplo). Isso sem contar questões de saúde: ninguém usaria produtos tóxicos como arsênico ou chumbo para fixar a tinta de um tecido nos dias de hoje, né?

Embora existam empresas especializadas em réplicas de estampas históricas, a verdade é que nós nunca conseguiremos reproduzir tecidos com 100% de correção histórica. As fibras e tinturas usadas nos dias de hoje não são as mesmas e até os teares modernos, mesmo os artesanais, têm resultados diferentes de seus ancestrais. Nós podemos fazer uma aproximação dos materiais originais, mas mesmo isso vai depender da disponibilidade de materiais e dos recursos financeiros.

Eu sou uma defensora ferrenha das adaptações quando não se trata de réplicas destinadas a substituir originais de época. A recriação de trajes históricos ainda está engatinhando no Brasil e a maioria dos pesquisadores, senão todos, atuam de forma independente e com recursos próprios. Seda e lã natural têm preços proibitivos, mas é possível encontrar similares sintéticos ou mistos com valores mais acessíveis. Desde que o resultado visual seja próximo às referências e o pesquisador deixe isso bem claro, eu não vejo impedimento para as adaptações. Inclusive acho que essas adaptações oferecem uma possibilidade fantástica de discutir a acessibilidade desses materiais no passado e como as técnicas de produção foram se modificando ao longo dos séculos.

A importância dos contextos

Tanto na criação do molde quanto na seleção de materiais, saber o que estava acontecendo na época que você se propõe a recriar é um diferencial imenso. Fatores como gênero, classe social e origem geográfica são determinantes, principalmente em trajes anteriores à Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O acesso da pessoa a determinados tipos de roupas, materiais e até cores era fortemente influenciado por esses fatores, mas isso é a pontinha do iceberg.

A questão dos contextos vai se tornando mais importante à medida em que você aprofunda sua pesquisa. Dá pra fazer recriação histórica sem dar atenção detalhada aos contextos? Sim, dá, mas você vai perder uma oportunidade preciosa de ver (e demonstrar) na prática como uma roupa nunca é só um pedaço de tecido cobrindo o corpo.

Maria Antonieta em toda a glória e indecência de sua Chemise a la Reine. Élisabeth Vigée-Lebrun, 1783.

Um dos melhores exemplos disso é a famosa e infame Chemise a la Reine aí em cima e porque ela causou tanta revolta dentro da França. Além de parecer uma peça de roupa íntima e ser informal demais para que a Rainha da França aparecesse com ela num quadro (que era pensado como um registro formal), ela era feita de algodão. Sabe quem dominava o mercado de algodão europeu? A Inglaterra, inimiga jurada da França desde sempre. Quando a Rainha apareceu no retrato com a Chemise a la Reine, em 1783, a guerra de independência dos Estados Unidos havia terminado há pouco e essa tensão Inglaterra x França era tão grande que a França tinha enviado tropas para ajudar os colonos americanos só porque eles lutavam contra a Inglaterra. Usar algodão, para a Rainha da França, era uma ofensa política grave numa coisa que é geralmente interpretada como um capricho de Maria Antonieta.

3) CONSTRUÇÃO DO TRAJE

A parte prática da recriação histórica, por assim dizer, que envolve aplicar os dados levantados sobre modelagem e técnicas de confecção. 

Para nossa alegria, existem vários sites, livros e vídeos ensinando técnicas de modelagem e costura histórica, variando desde a Idade do Bronze até a Segunda Guerra Mundial. Para século 18 e 19, nós temos inclusive ótimos livros em português (e gratuitos!) para te ajudar, além de vários blogs e vídeos com dicas preciosas para quem quer recriar um traje histórico em detalhes. Aqui e aqui você encontra dicas de perfis sobre o assunto em várias redes sociais.

Usar ou não usar máquina de costura?

Essa é uma daquelas adaptações que dividem opiniões. De uma forma geral, a comunidade de recriação histórica, acadêmica ou não, considera aceitável utilizar máquina de costura em trajes posteriores a 1850, embora até os anos 1970 ainda fosse comum fazer pelo menos os acabamentos à não por uma questão de capricho. Os setores mais progressistas defendem o uso da máquina de costura em todos os períodos, desde que as costuras aparentes de trajes anteriores a 1850 sejam feitas à mão. Aqui é uma questão de pesar a relação disponibilidade de tempo x comprometimento pessoal com a correção histórica.

Nesse ponto lembramos os questionamentos levantados por Hilary Davidson: qual é o seu objetivo ao fazer a recriação histórica dessa peça? Em um dos seus trabalhos, ela cita o caso hipotético de um Robe a la Française e faz esse questionamento. Se o objetivo da recriação é reproduzir uma silhueta e experimentar os efeitos do tecido e da armação sobre o corpo, uma costura à máquina não altera o resultado. Agora, se o objetivo é entender como a peça era de fato construída, pode ser mais bem mais interessante fazê-la com as mesmas técnicas de costura da época.

Recriação ou Reconstrução?

Como mencionamos anteriores, todo esse processo é um imenso trabalho de interpretação de fontes históricas. Por mais referências que você tenha, sempre restará alguma lacuna a ser preenchida e isso será feito de formas diferentes por cada pesquisador.  Por isso adotamos aqui o termo recriação, no sentido de criar algo novo ou realizar uma nova interpretação, a partir daquilo que já existe.

Esse texto foi elaborado como parte das discussões iniciais do projeto  e não é de forma alguma um livro de regras ou um guia definitivo. A prática da recriação de trajes históricos está começando a ser discutida academicamente fora do Brasil agora e ainda não tem uma metodologia própria estabelecida. Aqui, ela ainda é um hobby visto como excêntrico e até reacionário. Esse texto é mais um convite à reflexão e uma luz, um ponto de partida para quem está se interessando pelo assunto e não sabe bem por onde começar.

Referências Bibliográficas

BENDALL, Sarah. The Case of the “French Vardinggale”: A Methodological Approach to Reconstructing and Understanding Ephemeral Garments. Fashion Theory, 23:3, 363-399. Disponível online aqui.

DAVIDSON, Hilary. Reconstructing Jane Austen’s Silk Pelisse, 1812–1814, Costume, 49:2, 198-223. Disponível online aqui.

_____________. The Embodied Turn: Making and Remaking Dress as an Academic Practice, Fashion Theory, 23:3, 329-362. Disponível online aqui.

WEBSTER, Elaine; MILNE, Fiona. Cicero’s New Clothes: Recreating and Investigating Dress and Dress Effects. Costume. vol 38, 2008. Disponível online aqui.

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