Glossário: Robe a la Française

Por Pauline Kisner, Historiadora

Referido em inglês como Sacque-Back ou Sack Gown, esse tipo de vestido surgiu durante o período da Regência Francesa (1715-1723), entre a morte de Luis XIV e a maioridade de seu bisneto, o futuro Luis XV. Durante esse período, a rígida atmosfera de Versalhes ficou um pouco mais relaxada e a mantua, tão formal, foi sendo deixada de lado à medida em que afrouxavam as regras de etiqueta. Um novo estilo de vestido menos rígido e constritivo se tornou popular na Corte Francesa, o robe battante (também referido como robe volante e contouche).

DO CONTOUCHE AO ROBE A LA FRANÇAISE

Inicialmente, o robe battante era um vestido amplo que caía dos ombros ao chão sem nenhum tipo de ajuste ao corpo. Podia ser usado com ou sem stays, sendo por isso considerado também um traje utilizado por mulheres grávidas, pois permitia disfarçar os primeiros meses de gravidez.

c. 1703, Museu Nacional de Nuremberg (Alemanha)

A partir de 1715, a modelagem do robe battante inicia um lento processo de mudança. O torso começa a ficar mais ajustado e o vestido passa a ser usado aberto na frente, com um painel triangular inserido na abertura para ocultar o tronco. Esse painel (stomacher) podia ser alfinetado ou amarrado ao próprio vestido. Ao mesmo tempo, esse traje ganha volume na barra. Parte desse volume começa a ser distribuído ao redor de corpo através de pregas. E, para manter a silhueta do traje e permitir a exibição das grandes padronagens de seda que caracterizam esse período, tornou-se necessário o uso de peças de suporte específicas.

De 1730 em diante, o robe volante vai se tornando cada vez mais ajustado ao tronco na frente, mas preserva as pregas das costas que vimos no modelo acima. Assim ele dá origem ao Robe a la Française.

ANATOMIA DO ROBE A LA FRANÇAISE

O Robe a la Française possui uma série de características muito distintas, que o separam de outros vestidos do século 18.

Seu traço mais marcante é a presença das “pregas Watteau”, um tipo de pregueado que deve seu nome ao pintor Jean-Antoine Watteau, que retratou muito bem o movimento e o caimento desse detalhe.

Robe a la Française, 1760-1770. Museu Metropolitano de Nova York.

As pregas são cortadas de forma inteiriça com as costas, o que resulta numa peça com um alto consumo de tecido, muito própria para a exibição da riqueza. Conforme o diagrama proposto por Waugh (2001), calculamos em torno de um mínimo de 7m de tecido para confecção de um Robe a la Française sem cauda e com paniers de pequenas dimensões. Esse cálculo não inclui forros e decorações.

(WAUGH, 2001, p.91)

Para manter a estrutura do vestido, o corpete do Robe a la Française possui um forro ajustável com cordões, que fornece uma base estável para as pregas das costas:

Museu da Moda de Ludwigsburg. Fotografia gentilmente cedida pelo site Marquise.de

A frente do Robe a la Française não é totalmente fechada. Ele tem uma abertura, herdada do Robe Battante, para acomodar um stomacher sobre o torso e permitir a exibição da saia:

Robe a la Française, 1770-1775. Los Angeles County Art Museum (LACMA)

Sob as bordas da abertura da frente, o stomacher era inserido e alfinetado ao próprio vestido. Tradicionalmente, tanto o stomacher quanto a saia do Robe a la Française eram feitos no mesmo tecido que o vestido, embora haja alguns exemplares em museus e em publicações da época que trazem stomachers em tecidos diferentes, porém dentro da paleta de cores do traje.

Stomacher (1730-1750). Victoria & Albert Museum.

As saias que acompanham o Robe a la Française eram modeladas para encaixar sobre os paniers, com um engenhoso sistema de pregas que permitia, inclusive, a regulagem da largura das saias quando necessário. As saias do Robe a la Française costumavam ser bastante decoradas na frente, já que eram pensadas para ficar à mostra quando a mulher andasse. Quase todas as saias desse modelo que existem em museus são lisas nas costas.

Robe a la Française, 1775-1800. Museu Metropolitano de Nova York.

O Robe a la Française tradicionalmente era confeccionado com mangas 3/4 ou na altura do cotovelo, ajustadas ao braço, e com a presença de uma ou mais camadas de babados removíveis chamados de engageantes. Esses babados podiam ser feitos em diferentes tipos de renda, mas também sedas e a algodões finos, geralmente finos ou bordados na mesma cor. É frequente no formato dos engageantes que elas sejam mais compridos na parte de trás.

Engageantes de linho fino bordado, Museu Metropolitano de Nova York.

Com relação aos materiais, a maioria dos exemplares em museus são confeccionados em seda e forrados com tecido liso de qualidade inferior. Predominam as sedas estampadas com motivos florais, próprios do período, pintadas à mão, estampadas com blocos, bordadas e também brocadas. Também é possível encontrar exemplares em seda moiré. Mais raros são os modelos em algodão estampado, embora eles existam.

DERIVAÇÕES

Por volta dos anos 1740, o Robe a la Française deu origem ao casaquin (mais tarde também referido como pet-en-l’air). Tratava-se de um casaco informal que preservava as principais características do Robe a la Française (pregas traseiras e fechamento com stomacher, , podendo ter mangas 3/4 ou longas. Era usado principalmente com saias em tecidos contrastantes, embora haja conjuntos feitos no mesmo tecido. É possível que o casaquin tenha surgido a partir de Robes a la Française reformados após danos ou uso prolongado, dando destino a tecido reutilizado e a “saias órfãs” de outros trajes (ARNOLD, 1972; RIBEIRO, 2002).

Diagrama de um casaquin/pet-en-l’air proposto por Arnold (1972, p.29)

O ROBE A LA FRANÇAISE NA OBRA DE JULIÃO

Acreditamos ter identificado a presença de três possíveis representações do Robe a la Française entre as aquarelas de Julião. As três são figurinhas de mulheres negras, como rainhas ou membros do cortejo em festividades religiosas, possivelmente Congadas. Dessas três representações, somente na prancha 36 a perspectiva usada permite identificar claramente o Robe a la Française, devido à presença das pregas watteau:

Em outros dois casos, a perspectiva adotada não permite identificar claramente a presença desse modelo de vestido, embora ela seja possível dentro do contexto dos cortejos de Congada:

Prancha 37
Prancha 38

REFERÊNCIAS

  • ARNOLD, Janet.  Patterns of Fashion: The Cut and Construction of Clothes for Men and Women c. 1560-1620.  London: Macmillian.  1985.
  • RIBEIRO, Aileen. Dress in Eighteenth-Century Europe 1715-1789. Washington: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, 2002.
  • THORNTON, Peter.  The ‘Bizarre’ Silks.  The Burlington Magazine Vol. 100, No. 665 (Aug., 1958), pp. 265-270, London.
  • WAUGH, Nora. The Cut of Women’s Clothes (1600-1930). 2001.
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