Glossário: Robe a l’Anglaise

Por Pauline Kisner, Historiadora

O Robe a l’Anglaise surge com este nome em fontes da década de 1770 em diante, referindo-se a um tipo de vestido característico das Ilhas Britânicas, mas que estava em uso no continente e nas colônicas americanas pelo menos desde 1750. A forma típica do Robe a l’Anglaise deriva de um estilo anterior, a mantua, um traje feminino informal que esteve em voga na França dos anos 1670 até o início dos anos 1700. Enquanto na França a mantua foi abandonada nas funções oficiais de Versalhes, na Inglaterra esse vestido se tornou um Traje de Corte: um estilo regulamentado por decretos reais, que determinavam modelo e materiais adequados para cada grupo específico da nobreza, de uso obrigatório em todas as funções oficiais da Corte.

A mantua inglesa do final do século 17 tinha como características fundamentais a presença de costas ajustadas através de um intrincado sistema de pregas e de uma complexa sobressaia drapeada. O corte típico de uma mantua tanto permitia a preservação do tecido para futuras modificações (WAUGH, 2001) quanto se prestava à exposição das sedas de grandes padronagens produzidas por tecelagens indianas e europeias no período de 1680 a 1720 (THORNTON, 1958). À medida em que o modelo se impunha, surgiram duas variações distintas.

A mantua de Corte, usada com grand panier e sem cauda, obrigatória nas funções oficiais

1755-1760. Tecido francês com confecção inglesa. Victoria & Albert Museum (VAM)

A mantua regular, usada com suportes estofados e cauda (caída ou drapeada), como traje formal feminino fora das funções oficiais.

Ambos os modelos compartilhavam uma característica que seria herdada pelo Robe a l’Anglaise: as costas ajustadas com um habilidoso sistema de pregas, que moldava o corpete e enfatizava a silhueta desejada:

Costas da Mantua de Corte mostrada anteriormente
Costas da mantua regular mostrada anteriormente.

Nos anos 1740, as primeiras versões do Robe a l’Anglaise aparecem em inventários, orçamentos domésticos e publicações relacionadas à moda referidas como “mantuas” ou “mantuas inglesas”. Somente a partir dos anos 1770 ele passa a ser referido pelo nome de Robe a l’Anglaise, nomenclatura que é utilizada pelos principais autores para evitar confusões com o estilo do início do século 18.

ANATOMIA DO ROBE A L’ANGLAISE

1. Costas

A característica mais distinta do Robe a l’Anglaise, e que o distingue de outros estilos do período, é a presença das costas ajustadas. Inicialmente esse ajuste era feito através de pregas no tecido, visando à preservação do material para modificações futuras, o que era prática corrente no período. Dessa forma, o centro pregueado das costas do corpete e o painel traseiro das costas eram cortados como uma peça única, método que lembra a construção do Robe a la Française.

1747, alterado na década de 1770. Tecido e confecção ingleses. Museu Metropolitano de Nova York.

Porém, à medida em que as pregas foram se tornando mais profundas e próximas do centro das costas(fig.A), especialmente a partir de 1770, o corte começa a evoluir para um modelo em painéis individuais (fig.B). Esta mudança coincide com a gradativa adoção dos algodões estampados no lugar da seda.

[fig.A] 1770. Museu Metropolitano de Nova York,
1780s. Museu Metropolitano de Nova York

2. Frente e Mangas

A frente do Robe a l’Anglaise possui inúmeras variações registradas em ilustrações/retratos, gravuras de moda e em exemplares de museus. Os decotes variam entre modelos redondos e levemente quadrados, altos ou baixos, e esta variação parece obedecer muito mais ao gosto da usuária do que a alguma tendência geral de formato (WAUGH, 2001; ARNOLD, 1985).

Modelos com a presença de stomacher separado são muito mais presentes no período de 1740 a 1770:

1747, alterado na década de 1770. Tecido e confecção ingleses. Museu Metropolitano de Nova York.

Nas décadas de 1770 e 1780 predominam os modelos com corpetes fechados, em sua maioria alfinetados. Quando usados por mulheres mais velhas, ao ar livre ou com decotes particularmente baixos, era comum que acompanhassem um lenço para proteger o busto Este lenço, chamado fichu, era tradicionalmente branco, podendo ser bordado; fontes da época registram o uso de fichus coloridos entre as classes populares (RIBEIRO, 2002)

1770-1780. Los Angeles County Museum of Art (LACMA)

Quanto às mangas, predomina o comprimento 3/4, com ou sem engageantes. A partir dos anos 1780 percebe-se também a introdução de mangas longas ajustadas, uma tendência que já antecipava os modelos de mangas que predominariam na década seguinte.

3. Saia Interior e Suportes

Embora Waugh (2001) defenda que o Robe a l’Anglaise jamais era usado com paniers, algumas peças existentes em museus parecem contradizer isso, especialmente antes de 1770. É provável que inicialmente o modelo fosse usado com um par de petit paniers (como era o caso de alguns Robes a la Française) e partir de 1770 tenha passado a seguir a tendência geral de abandono das armações metálicas pelas estofadas. (RIBEIRO,2002).

Observa-se que inicialmente as saias do Robe a l’Anglaise eram confeccionadas com o mesmo tecido do corpete e sobressaia. A modelagem da sobressaia, com uma generosa abertura na frente, permitia uma exibição ampla da saia interior:

1770. Museu Metropolitano de Nova York,

A partir dos anos 1770, e com mais força na década de 1780, os modelos passam a acompanhar também saias de cores contrastantes. No caso de modelos em algodão estampado, saias lisas aparecem com frequência nos conjuntos.

c. 1790. LACMA.

A confecção das saias corresponde à modelagem básica das saias do período, com modificações conforme a natureza das peças de suporte utilizadas.

4. Decorações

Apesar de informal, o Robe a l’Anglaise era considerado um estilo mais sóbrio em relação às suas contrapartes francesas. Ao contrário do Robe a la Française, ele não recebia decorações pesadas, como bordados metálicos e aplicações de passamanarias em geral. Era muito mais comum que o Robe a l’Anglaise fosse decorado com aplicações feitas do próprio tecido (pregas e pequenos babados são particularmente populares até 1770) ou que não fosse decorado (mais comum a partir do uso gradativo dos algodões estampados).

Exemplo de aplicação feita com tiras pregueadas do próprio tecido. 1770. Museu Metropolitano de Nova York,

O ROBE A L’ANGLAISE NA OBRA DE CARLOS JULIÃO

Não podemos afirmar que o Robe l’Anglaise fosse qualificado como traje formal ou informal nas colônias portuguesas. Também não encontramos na obra de Julião nenhuma representação que permita afirmar com 100% de certeza que se trata de um Robe a l’Anglaise. Porém, acreditamos se tratar de um vestido desse modelo na fig. 02 da prancha nº 22:

EXTRA

As pesquisadoras Tupa Guerra e Eneida Queiroz estão atualmente na recriação da fig. 02 da prancha 22. Elas produziram um vídeo contextualizando o Robe a l’Anglaise e demonstrando algumas possíveis técnicas de construção dele:

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REFERÊNCIAS

  • ARNOLD, Janet.  Patterns of Fashion: The Cut and Construction of Clothes for Men and Women c. 1560-1620.  London: Macmillian.  1985.
  • RIBEIRO, Aileen. Dress in Eighteenth-Century Europe 1715-1789. Washington: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, 2002.
  • THORNTON, Peter.  The ‘Bizarre’ Silks.  The Burlington Magazine Vol. 100, No. 665 (Aug., 1958), pp. 265-270, London.
  • WAUGH, Nora. The Cut of Women’s Clothes (1600-1930). 2001.
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