O que vestiam os brasileiros e brasileiras em outras épocas da nossa história?

Essa é a pergunta que o projeto Traje Brasilis quer responder.

Família de imigrantes libaneses estabelecidos em São Paulo, possivelmente década de 1910 (datação nossa). Acervo do Museu da Imigração.

O projeto Traje Brasilis é uma iniciativa de um grupo de pesquisadores independentes de História da Moda, que começaram a debater sobre a necessidade de entender como as modas europeias do século 18 e 19 eram apropriadas no Brasil. Em uma dessas conversas surgiram as aquarelas de Carlos Julião, um militar italiano que passou pelo Brasil no final do século 18 e produziu uma série de ilustrações dos trajes da época, e a sugestão que deu origem ao projeto: não seria legal se alguém recriasse essas roupas?

Mas o que é “recriar um traje histórico”? Na falta de um conceito acadêmico, propomos o nosso: produzir uma peça a partir de registros reais (um traje original ou uma referência visual da época), buscando a maior aproximação possível com a modelagem, estrutura de suporte interno, materiais utilizados e técnicas de costura e decoração do período. Porém, essa definição dá conta apenas da parte material do traje e o ato de vestir o corpo nunca é apenas sobre cobrir a nudez e se proteger das condições naturais. Vestir-se é comunicar-se e cada peça que toca o corpo humano carrega uma história própria não só da sua produção, mas dos seus usos. Muito mais do que saber o que era usado em cada época, a História Social da Moda se preocupa em entender qual é o papel da moda dentro da sociedade. Por isso, nós defendemos que a recriação de um traje histórico vai muito além da materialidade e oferece uma oportunidade ímpar para estudar aspectos sociais, políticos e econômicos de cada período – todos eles tecidos em uma trama complexa nos trajes originais e na iconografia da época.

Nosso objetivo é gerar e divulgar conhecimento sobre a História da Moda no Brasil, num formato acessível a diferentes públicos e longe do modelo que enfatiza nomes de estilistas famosos e silhuetas icônicas. Nós queremos saber o que vestiam as pessoas comuns e como suas roupas se relacionavam com a época em que elas viviam. Mas também queremos descobrir as técnicas e materiais usadas na construção dessas roupas – e disponibilizar essas informações de maneira gratuita para historiadores e designers de moda, mas também para figurinistas, costureiros e curiosos sobre o tema.

Para chegar a isso, o projeto foi dividido em etapas, considerando diferentes períodos da História do Brasil e a existência de fontes (referências visuais e textuais) que pudessem nos servir de base. E resolvemos começar justamente pelas aquarelas que desencadearam todo o projeto!

A PRIMEIRA ETAPA: AS FIGURINHAS DE CARLOS JULIÃO

A primeira etapa do projeto, desenvolvida entre junho de 2019 e junho de 2020, será dedicada aos trajes do período colonial registrados na obra de Carlos Julião (1740-1811). O catálogo “Riscos Iluminados de Figurinhos de Negros e Brancos dos Uzos do Rio de Janeiro e Serro Frio”, publicado em 1960 pela Fundação Biblioteca Nacional, traz 43 aquarelas retratando trajes representativos de grupos da sociedade da época. Nelas encontramos militares e civis, indígenas, negros escravizados e libertos, com seus trajes representados em detalhes que incluem descrições de bordados, do tipo de traje e ilustrações precisas das estampas usadas.

Cada pesquisador será responsável pela recriação de um traje do catálogo de Julião, o que inclui a pesquisa teórica e o processo de confecção das roupas em todas as suas camadas. Como um dos objetivos do projeto é popularizar o acesso às referências de história da moda brasileira, todos os resultados de nossas pesquisas, assim como os processos de confecção, serão documentados no site do projeto e estarão disponíveis para consulta pública.

Para finalizar esta etapa, planejamos um evento público em 2020 para compartilhar os resultados e discutir as possibilidades desse tipo de pesquisa no Brasil. Nesse evento as figurinhas de Julião e os trajes recriados serão apresentados em detalhes ao público através de atividades como palestras, painéis com especialistas e oficinas. A ideia é realizar um evento aberto e gratuito, com caráter de divulgação científica, na região Sudeste.

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